Era um daqueles dias preguiçosos, que nos levam a sentar num singelo banco de uma praça qualquer e escutar os alegres cantos dos múltiplos pássaros que sobrevoam junto aos nossos pensamentos.
Mas não pude deixar de escutar também um incipiente diálogo entre pai e filho, que se desenrolava num banco ao meu lado.
O menino devia ter, aproximadamente, 9 ou 10 anos, o pai, bem mais maduro, demonstrava seus conhecimentos jurídicos durante a confabulação.
- Pai, amanhã na escola faremos um debate em nossa sala sobre os direitos e deveres do cidadão e gostaria de umas dicas de um adulto.
- Que ótimo, filho, e quais são as suas dúvidas?
- Tenho um colega de sala que diz que sabe tudo, adora contar vantagens, e me afirmou que se algum bandido maltratar uma pessoa que ele gosta, ele também tem o direito de maltratar esse bandido. Sei que isso só pode ser coisa de criança! Mas o que o adulto faria numa situação dessas?
- Bem, filho, quando alguém magoa ou agride pessoas que estimamos, muitas vezes a primeira reação de um ser humano é revidar aquela violência, mas um adulto equilibrado precisa se conter e levar o assunto para ser resolvido conforme as leis brasileiras, onde todos terão o direito de defesa e, se confirmada a culpa, o dever de cumprir a punição que for imposta pela autoridade competente. Fazer justiça com as próprias mãos seria uma volta à barbárie.
- Barbárie? É onde você corta o cabelo?
- Não filho, barbárie representa justamente os costumes passados, quando não havia leis para se cumprir, antes da atual civilização.
- Ah, sei! Mas ele me disse mais um absurdo: falou que uma antiga babá que ele teve está presa por roubar 2 pacotes de leite num supermercado, pois estava desempregada e não tinha como alimentar a sua filhinha, porém, se fosse com ele isso não aconteceria, mesmo que ele estivesse dirigindo um carro em alta velocidade e atropelasse várias pessoas, inclusive com vítimas fatais, já que sua família é rica e ele então pagaria um valor estipulado por uma tal de ''FIANÇA'' e iria pra casa na mesma hora. Sei que isso só pode ser coisa de criança! O que aconteceria com um adulto nesse caso?
- Filho, eu acho melhor tomarmos um sorvete!

Alberto Chahaira Sobrinho é pedagogo em Bela Vista do Paraíso

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