CRÔNICA - Casas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de outubro de 2008
Paz Aldunate 
As casas, como nós, também vão adquirindo cicatrizes ao longo do tempo. Enchem-se de ferrugem, rachaduras, manchas, descascados e remendos; o corredor lateral ou o quintal do fundo vão sendo tomados por caixas, móveis velhos, vasos quebrados, suportes de metal, restos de material de reformas, ferramentas e um monte de tralha que não sei por que as pessoas têm dó de jogar fora.
A construção nova e bem definida na qual fomos morar há dez anos foi se transformando, adquirindo novos contornos, cores e cheiros por causa da nossa permanência nela. Surgiram manchas, cantos, prateleiras, quartinhos, grades, áreas, canteiros e degraus que foram aos poucos mudando a sua fisionomia original. Uma plácida e condescendente desordem espalhou-se pelos cômodos, pois cada habitante foi arrumando as suas coisas de acordo com as suas necessidades ou estados de espírito. Assim, parece que cada parte da casa tem um pedaço da personalidade de seus moradores, o que lhe confere um ar bem eclético e por vezes meio caótico, que é tremendamente íntimo e cheio de significados.
A rotina doméstica impõe rituais que vão ocupando implacável e definitivamente os espaços, tornando-os por isso muito especiais e amados, como portos seguros em meio às mudanças e correrias do mundo lá fora. Todos os defeitos e marcas que a nossa casa foi adquirindo ao longo do tempo - sequelas da nossa existência nela - contam a nossa história e mostram a nossa personalidade, unindo-nos a ela com laços de uma força que jamais imaginaríamos. Nem sempre são transformações planejadas ou acontecidas de maneira agradável, mas são, certamente, inevitáveis, pois a nossa casa - a construção de alvenaria, ferro, madeira e vidro - não é insensível ao nosso existir. Se sempre deixamos marcas por onde passamos, o que será então do lugar no qual moramos por anos e anos!...
Gosto de casas novas e cheirando a tinta e argamassa, com seus jardins planejados e cada móvel e enfeite em seu lugar, mas, definitivamente, prefiro aquelas que têm uma história para contar, que se orgulham - ou não - de mostrar as suas cicatrizes, manchas e remendos, suas rachaduras e tralhas, suas portas que rangem, suas áreas desordenadas, seus quartos cheios de personalidade e significado, de objetos queridos.
Hoje, quando caminho pela minha casa, sinto como se estivesse fazendo-o dentro de mim mesma. É meu território, meu refúgio, parte da minha identidade, e me orgulho de cada marca que nela deixei e vou deixar ainda, pois trata-se da minha vida, da minha história, que está transcorrendo entre estas paredes, transformando-as num fiel reflexo do que sou. Casas novas estão mortas até que o dono lhes impregna a sua história. Casas velhas estão vivas porque já existiram junto com o dono e dele sabem tudo, transformando-se no espelho da sua alma.
PAZ ALDUNATE é professora de teatro, dramaturga e escritora
Crônicas é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 50 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato e foto para [email protected].


