Conheci, há cerca de 30 anos, um mecânico de carros chamado Zulim, rapaz jovem, com mais ou menos 25 anos. A oficina do Zulim vivia abarrotada de veículos para manutenção. Isso era devido ao fato do Zulim ser especialista em regulagem de carburadores. Até as concessionárias mandavam veículos para o Zulim, por causa de sua competência, eficiência e pontualidade. Fazia a regulagem ''de ouvido'', diziam. Era o melhor da região, diga-se.
Ocorre que os veículos, nos anos 80, passaram a ser produzidos com uma nova tecnologia de alimentação - a injeção eletrônica! O Zulim não se deu conta disso, aliás, não acreditou nessa novidade, até desdenhou: - Não vai dar certo, dizia ele.
Teve concessionária que ofereceu ao Zulim o curso de injeção eletrônica, na montadora, gratuitamente, incluindo despesas de viagem, hospedagem e alimentação. Ele dispensou o convite, pra dizer a verdade, nem satisfação deu!
Passados alguns meses, as concessionárias, por conta da injeção eletrônica, não mais procuraram os serviços do Zulim. Porém, os veículos com carburadores convencionais garantiriam trabalho para o resto de sua vida, acreditava o Zulim.
Os anos se sucederam e os serviços foram diminuindo, paulatinamente. O profissional percebeu intervalos na sua jornada diária. Começou, então, a dar umas fugidinhas, nesses intervalos, até o bar do Pezão. Triste decisão! Desmotivado, desanimado e viciado, depois de algum tempo, fez o caminho inverso e vez em quando dava umas fugidinhas do bar do Pezão para executar algum trabalho.
Perdeu a confiança e a credibilidade, e por consequência, a freguesia e o trabalho. Vendeu seu carro, vendeu sua casa, a mulher foi embora, não se sabe pra onde e com quem.
O último contato do grande profissional Zulim com sua oficina foi a venda do seu ferramental. O dinheiro foi consumido, rapidamente, com os cotovelos apoiados num balcão de bar.
E numa manhã, não muito distante, do mês de novembro, foi encontrado morto, ao lado de um banco de concreto, na praça do hospital. Seu corpo estava em decúbito ventral, com uma roupa velha, imunda, rasgada e com marcas envelhecidas de graxa.
Só não foi enterrado como indigente em virtude de um cartão de visitas, antigo, quase ilegível, encontrado no bolso de trás de sua calça, com os dizeres: Mecânico Zulim - Especializado em Regulagem de Caburadores - Rua 13 de Maio s/n.
João Cândido da Silva Neto é eletricitário em Santo Antônio da Platina

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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