CRÔNICA - Capacidade de mudar
Chego em casa, já é pouco mais da meia-noite. Minha esposa está deitada no quarto do meu filho, tentando fazê-lo dormir. Sem sono (e sem fome), vou para a cabeceira da cama e começo a ler ''Meninas da Noite'' (livro do jornalista Gilberto Dimenstein que fala sobre a prostituição infantil).
Lá pelas tantas sou interrompido por um ''pingo de pessoa'' todo de azul, cutucando o meu pé e, como quem quer puxar assunto, me diz com um sorriso do tamanho do mundo: ''Oi''?
Aquele ser de pouco mais de um metro (pelo menos eu acho que ele tem mais de um metro), tira toda a minha atenção. Bom, ele foi até meu quarto para conversar, então tudo que vê aponta como se fosse novidade para nós dois: cortina, quadros, barata morta, fotos, meu tênis, exatamente tudo. Não satisfeito, meu filhote resolve subir na cama. Nessas alturas já parei de ler faz muito tempo, e não me lembro mais nem em que página estou.
Ele parou o meu planeta!
Como uma coisinha tão pequena muda a rotina de jornalistas, médicos, doutores, professores e donas de casa? Não nos damos conta de que toda a nossa correria é para melhorar o ''mundo'' ou pelo menos a nossa rua, para que outras pessoas usufruam de um lugar melhor para se viver (por que a gente dificilmente consegue). Onde se possa apontar para as coisas, e tudo ser motivo para um bom diálogo, sem receios ou banalidades, um lugar quase perfeito - não fosse pela barata morta no canto do quarto - é o jogo da vida.
Pois bem, quando ele se cansou, saiu sozinho da cama e voltou para os braços da mãe, então reencontrei a página em que havia parado e sai do meu mundo, e voltei para uma realidade gritante e assustadora. Um Brasil negro e real, de meninas perdidas na prostituição na região Amazônica.
Tony Lima é locutor em Jacarezinho e estudante de jornalismo





