Olhou o calendário a sua frente. Nove meses. Período de uma gestação. Mas o que é uma gestação? Um período de espera, de expectativas, de esperança... Nove meses. Contagem regressiva à espera de um rosto, de uma forma, uma vida. E como ele estava bem acomodado naquele ventre. Não queria sair, estava emperrado. A mãe contava que quando o médico abriu-lhe a barriga, ele estava recostado numa cadeira, com ar de satisfeito e uma viola na mão. Cantava: ''Daqui não saio, daqui ninguém me tira''. Mas saiu.
Saiu e enfrentou a vida, que lhe pareceu bela até descobrir que para ir para o céu precisava morrer. Então insistia: ''Quero morrer para ir para o céu.'' Mais tarde, sempre irreverente, cismou que queria ter uma namorada azul. Acho que o infinito sempre lhe despertou curiosidades. Quis morrer outras vezes, porém descobriu que a vida poderia ser maravilhosa aos dezessete anos. E viveu. Viveu plenamente.
Mas, aos dezoito anos resolver ler Sylvia Ortof: ''Se eu me for/ vou de bagagem/ sem ter mala e compromisso/ vou de anjo/ sem ter asas/ vou morando sem ter casa/ vou medir o infinito.''
E simplesmente partiu. Está medindo o infinito? Voando sobre nuvens, conhecendo sua noiva azul? Encontrou o céu? Bagagem não levou. Terá levado saudade? Tristeza? Mágoa? Como estará, anjo explosivo, sem asas, sem casa... O calendário continua em suas mãos.
Nove meses... e a vida não eclodiu.
Nove meses de Chico Buarque: ''Saudade é o revés de um parto. Saudade é arrumar o quarto pro filho que já morreu.''
Nove meses... Uma gestação ao contrário. O que tem crescido não é o ventre. É a saudade, a perda, o vazio. E o pato não chega. Nove meses de apenas... vazio.
O calendário caiu-lhe das mãos sem barulho e seu olhar está perdido em algum lugar do infinito.
Édna Póss, professora de português do Colégio Estadual Francisco Alves de Almeida, em Conselheiro Mairinck

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