CRÔNICA - Calçada nova
Você pode notar, é só acabarem de fazer uma calçada e logo vai um lá e pronto! Mete o pezão em cima. Deixa a sua marca.
Parece que existe neste ato uma consolidação de imortalidade. O homem vai mas a calçada fica. Isso se a companhia de água e esgoto não a quebrar pra fazer conserto.
E, se por acaso, não for o suficiente, ainda põe a data e as iniciais. Ou só as iniciais e a data. Ou o apelido.
Funciona mais ou menos assim: se põe a marca do pé é só uma pisada pra dizer que ele chegou primeiro. E raríssimas vezes alguém pisa em volta porque já não tem mais graça. O gostoso é pisar primeiro.
Se colocar o nome é porque quer que todos saibam quem marcou a calçada, mas nunca o sobrenome porque compromete. Se põe o nome e a data, quer que saibam quem e quando a marcou. Se são feitas as iniciais e a data é porque quer que algumas pessoas suponham quem foi mas na data certa.
Também é raro colocar só a data.
No caso do apelido é porque deseja que suspeitem quem foi e não se pode comprovar se há duas pessoas com o mesmo apelido. Fica assim a salvo a sua identidade.
Pode ser também que as marcas sejam de mãos. Se for uma é porque foi voluntária. Se forem duas, de adulto e profundas é porque alguém escorregou e caiu sobre a calçada. Normalmente estas vêm acompanhadas, logo atrás, de marcas de joelhos.
Quase sempre as marcas de duas mãos são feitas por crianças. Exceto. Sim, há exceção. Exceto em Hollywood onde os artistas famosos deixam suas marcas na calçada da fama com as mãos. E aí, ainda colocam o nome dele, que no caso nunca é o verdadeiro mas um pseudônimo.
Lá eles contrariam todas as coisas descritas acima. Querem que todos saibam quem foi e põem as duas mãos. Mas isso é em Hollywood.
E se por acaso você vir uma calçada nova com aquele cimento fresquinho, convidativo, tente resistir, mas certamente chegará atrasado pois sempre haverá alguém e fará a sua marca antes de você. A menos, sim, existe uma chance de você escrever seu nome antes: quando você fizer a sua própria calçada.
Dailton Martins é comerciante em Londrina
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





