CRÔNICA - Blusa vermelha
Tinha se formado. Foram cinco anos difíceis. Conciliava trabalho e estudo. Levou mais dois anos, até lograr aprovação no exame obrigatório. Era, finalmente, advogado. Que orgulho! Para ele e para a família.
Uma semana inteira esperando pelo primeiro cliente. Era sexta-feira, quase fim de tarde, primavera, sol quente, podia sentir o perfume das flores. Uma tarde morna e entediante.
Ela, então, abriu a porta, entrou, olhar triste, blusa vermelha decotada, saia branca justa, não tão curta, parecia aderir à pele e às suas formas voluptuosas. Seios sufocados, implorando para respirar. Parecia que iam explodir.
Sentou-se do outro lado da mesa, cruzou as pernas, fez um leve movimento à frente, eles arfavam conforme seus lábios se moviam, pronunciando palavras que mais pareciam doces e irresistíveis melodias.
Seu coração disparava, numa velocidade que dava a impressão que ia sair do peito. Todo seu corpo foi contaminado pela áurea de sedução. Ouviu calmamente sua história, e mesmo perturbado, rabiscou algumas informações.
Marcou nova entrevista para dali uma semana. Despediu-se dela quando sua vontade era envolvê-la em seus braços, cobrir sua boca com um beijo, e assim permanecer, neste doce enlace, até os fins dos tempos.
Ela saiu da sala, e enquanto afastava-se, ele a seguiu com os olhos, notando que o balanço de suas cadeiras tornava-a ainda mais sensual, quase uma súplica para o amor.
No dia marcado, depois da eternidade de uma semana, chegou mais cedo ao escritório, esperou-a durante todo o dia, nem saiu para almoçar, desmarcou seus compromissos, reservou todo o tempo para ela. Já era quase oito horas da noite e ela não apareceu.
Foi para casa, não conseguiu dormir naquela noite. No dia seguinte foi até o seu endereço. A casa estava fechada. Soube pelos vizinhos que era casada. Cinco dias antes, seu marido, embriagado, como tinha o costume de fazer, maltratou-a, agredindo-a mais uma vez.
Exausta, vencida pelo desamor, e num momento de fúria, ainda que por alguns segundos, ela reagiu, ele caiu, bateu a cabeça na quina da pia, não resistiu. Ela mesma chamou a polícia, foi encarcerada, aguarda julgamento.
Não sai de sua memória a sensualidade do seu andar, seu olhar implorando compreensão, sua doce voz e aquela blusa vermelha de decote generoso.
Aguarda, paciente, pela felicidade, que um dia, seu coração diz que virá.
Mauro Vasni Paroski é juiz do Trabalho em Londrina





