Lembro-me e recordar é o que resta. Fui menina e o tempo passou feito um carrossel. Parece a vida ser curta como um riso, dura igual a uma dor e longa como a velhice. E aquela vez! Relembro sem ter o velho amigo para me ouvir. Resta-me a saudade daqueles tempos.
Lembro-me, enquanto não me chamo saudade, houve felicidade. Há de haver atrás da vida um olhar que seja cego e se visto, tardio. Fui feliz sem saber e talvez seja a melhor forma de ser.
Lembro-me, recordar às vezes dói. Insensatez me fez amiga do perdão, felicidade era água que pegava com a mão e me banhava e limpava o rosto. De água o que me resta hoje é no olho a molhar o chão.
Tolice é lembrar, mas lembro-me. Inda menina, à beira da nascente, ouvi o rio dizer-me da vida, que feito água a vida passa. Lembro-me, o que resta é achar graça.
Tantas lembranças. O que tenho é memória, quando a vida entrega abraços uma hora cobra o adeus. Tanta saudade e tanto riso. Quanta recordação. Lembro-me, hei de ter sido feliz, o acaso não quis e eu tropecei.
Só, vejo-me só. Quantos perguntam se dá para voltar! E eu também. Pegaria cada caco das memórias para reviver o que fui, regressaria a tempo de ser feliz. Ora, a vida é mesmo, é mesmo, é mesmo...
Lembro-me de tanta coisa que não recordo o que é a vida.
Mas lembro-me tanto e restam as fotos reveladas na mente. E aquela vez, suspiro ao pensar, alento em saber, será vida outra vez, basta de recordar.
Resta-me ao olvido a límpida resolução do que queria, em mais que um dia, ser feliz novamente.
Lembro-me, agarrei com unhas à felicidade, e a deixei passar feito um trem que parece não voltar nunca mais. Sento-me a beira do seu trilho, espero e o trilho sabe só dizer adeus.
Thiago Damião, 20 anos, mora em Maringá

mockup