Esse exército retornando pra casa no fim da tarde, fazendo filas eternas no ponto de ônibus, carregando sacolas, pacotes, pastas, mochilas; passando no mercado para comprar a janta, na padaria para ter o pão, o queijo e o presunto para o lanche e o café da manhã.
Alguns sérios, tensos, se preparando para encarar faxina, fogão, roupa suja, deveres da escola. Muitos cochilam no metrô, no ônibus, no calor do coletivo, descem de um, sobem no outro, extenuados, e ainda ensaiam um sorriso quando chegam em casa...
Vão rápido, calados, concentrados, talvez se perguntando de onde vão tirar força e coragem para tornar a fazer isto amanhã, e depois de amanhã, e todos os outros dias das suas vidas. Talvez pelos filhos, pelas contas, pelos sonhos, pela esperança de uma vida melhor. Saem quando o sol ainda não despontou e voltam quando já se escondeu. Alguns têm mais do que um emprego...
E deste jeito, o dia foi embora nesta batalha sem trégua, sem chance de desistir, de negociar, de fracassar... E parece que à noite o lar fica ainda mais longe e que demora uma eternidade para chegar.
Mas chegam, se recompõem, respiram fundo, dormem seu sono mesquino e voltam à batalha no dia seguinte."

Paz Aldunate é professora, escritora e artista plástica em Santiago (Chile)

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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