CRÔNICA - Bachan
Depois que meu avô morreu de tanto fumar, há 12 anos, bachan (avó em japonês) costumava acender um cigarro e colocar no oratório budista, junto com outras oferendas como frutas e pães. E ela nunca fumou.
Dona Rosa (seu nome é Youko, mas todo mundo a chama de Rosa) costuma se impressionar com histórias de almas penadas, mas não teve medo quando viu uma luz intensa e muito bela na cozinha. A luz se movimentava com rapidez, e de repente desapareceu. Então ela foi à igreja - que já frequentava - e pediu para ser batizada.
Só depois de viúva pôde conhecer o mar. E também realizou o maior sonho de sua vida: frequentar a escola. Fez supletivo e tirou o diploma do primário, com ótimas notas em matemática.
Velhinha empreendedora, viu na Apae um lote de sutiã vermelho a preço de banana (era doação da Receita Federal) e não teve dúvidas: comprou vários pra revender. Com vergonha, fez acordo com uma comadre: a cada tantos que a amiga vendesse, dava-lhe uma porcentagem. As peças que sobraram foram parar no brechó da sua cidadezinha, em troca de panos de prato - que ela bordou e novamente pôs pra vender.
Dia desses me contou com saudade da primeira vez na vida que tomou sorvete: tinha cinco anos, o irmão mais velho a levou à sorveteria porque a lavoura tinha rendido bastante. Lambuzou-se toda, manchou o vestido com vários sabores. E passou os oito anos seguintes (a segunda vez foi apenas aos 13 anos) sonhando com a iguaria. ''Tinha tanta vontade que até me desenhava tomando sorvete'', revelou, e trouxe junto com a lembrança um sorriso de menina.
Quando digo que tenho muito orgulho dela, bachan ri: ''sou apenas uma velha que veio do sítio e só sabe dar trabalho pra vocês'', retruca, e volta a cuidar de seu quintal sempre florido.
Adriana Ito é jornalista da FOLHA





