Um amigo engenheiro reclamava de minhas limitações. Argumentava que eu precisava deixar a Literatura de lado e aproveitar os ensinamentos transmitidos por alguns livros. Espalhou-os sobre a mesa. Escolhesse um. Para não demonstrar preconceito, escolhi o mais fino e numa tarde atravessei tranquilamente as cento e vinte páginas descrevendo, no sábado seguinte, minhas impressões rotineiras de leitura.
- Então? Indagou sorridente. Este livro não mudou sua maneira de ver o mundo?
Respondi qualquer coisa, finalizando que, em síntese, valia-se de estruturas concebidas e frases de efeito para incentivar os leitores a alcançarem o sucesso. No entanto, acrescentei, o sucesso se alcançava com determinação, dedicação, disciplina.
- Que conversa de determinação, dedicação, disciplina? A gente pode mudar a vida de uma hora para outra. É só repetir que a gente pode!
Argumentaria, mas a sobrinha de nove anos, cabelos pretos além da cintura, entrou na sala. A que horas iriam cortar o cabelo? Os olhos sobressaltaram, os dentes apareceram e meu amigo veio do quarto segurando uma grande tesoura:
- A gente pode! A gente pode! Repetiu a frase cincos vezes.
Claro que podíamos, respaldei. Aliaríamos minha inclinação estética à sua capacidade de cálculo. Demos algumas tesouradas à altura do pescoço, retiramos o excesso das orelhas, extirpamos os fios arrepiados de topo e, quando tentamos criar uma franja, percebi que não podíamos nada.
Dias depois, meu amigo confidenciou: a irmã virara uma fera e arremessara-lhe objetos que cortaram os lábios e deixaram um olho roxo. Outro dia vi a sobrinha e irmã dele andando no Calçadão. Me escondi imediatamente. Vai que a menina me reconhece...
Vicentônio Regis do Nascimento Silva é crítico literário e tradutor

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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