CRÔNICA - Aspas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Raquel Garcia Punhagui Bachega 
A chuva caía mansa. Fazia um friozinho agradável e convidativo para uma deliciosa noite de sono. Foi um dia agitado. A cidade ainda estava em polvorosa devido ao resultado das eleições para prefeito (a). As pessoas corriam, soltavam fogos. Tudo parecia novo, intrigante, mais uma novidade que se punha a nossa frente. Enfim, o cenário parecia perfeito para uma noite de descanso merecido, não fossem aquelas aspas perturbando o meu sono. Sim, senhor, aqueles sinalzinhos que se encontram no canto esquerdo do meu, do seu, do nosso teclado de cada dia.
Por causa daquela palavra tão conhecida e simples, mas que acompanhada pelas aspas, saí do conforto de minha cama. E cá estou eu.
Não tive dúvidas. Levantei e fui em busca do meu diário, onde faço confidências, anotações e registro pensamentos diversos. Aquele velho companheiro desses momentos de insônia, meu caderninho de capa azul, que agora tem lugar especial no escritório de minha casa, pois o perdi um dia desses e sua falta fez-me enlouquecer de tristeza. Mas esta é outra história...
O fato é que estamos aqui. Meu caderninho e eu. Nesta noite perfeita para quem precisa recuperar suas energias embalando-se num sono tranquilo e reparador. Mas, não adianta. É como dizia meu velho amigo da Psicologia, o senhor Wertheimer, o ''insight'' chegou e precisa ser registrado antes que fuja novamente.
''Insight''. Está aí outra palavra com aspas, mas agora é fácil saber o porquê deste sinalzinho perturbador. É que ''insight'' é uma palavra estrangeira que quer dizer ''achar subitamente uma solução para uma situação difícil''. Palavra estrangeira pede aspas, assim como a frase que a define neste momento. E aí vai...
Mas, naquela manchete de jornal que dizia Polícia ''estoura'' fábrica de CD e DVD piratas, as aspas passaram desapercebidas aos meus olhos. E dentre tantas mazelas que vemos e ouvimos nos noticiários, a manchete pareceu-me clara: policiais ''tocando fogo'', bombas explodindo um local onde CDs e DVDs eram fabricados ilegalmente. Imaginei um barraco indo pelos ares. Visualizei bombeiros chegando ao local, aquela loucura. Não é assim agora? Policiais fazendo justiça ''a lá modernidade''? Mas, desta vez, eles estavam apenas usando uma metáfora.
Na realidade, as aspas só me saltaram aos olhos quando meu pai comentou ter lido a mesma notícia em outro periódico e lamentava o abuso dos impostos sobre a produção legal dos CDs e DVDs. Participei do assunto contando o que eu havia lido na manchete do meu jornal e ainda caprichei na cena de terror que assolou meus pensamentos... Só então, ao observar o olhar repreensivo e irônico de meu pai, aquele velho olhar de sabedoria, percebi que faltava ou sobrava dado na interpretação que fiz ao ler aquela chamada no jornal. Lembrei-me que não havia lido a notícia na íntegra e busquei resposta na página onde a palavra estoura aparecia entre aspas. Bem assim: ''estoura''.
Constrangimento. Disfarce. Um gostinho ruim de quem ''tropeçou'' na língua ...e lá vão as aspas aí também.
Um sinalzinho tão pequeno mudou a grande notícia. De um dia terrível de catástrofe para apenas mais uma ação de fechamento de uma fábrica de CDs e DVDs clandestina.
E do alto dos seus sessenta e poucos anos, meu pai ainda me olhava aguardando uma reação ou justificativa, quem sabe.
- É pai, o senhor tinha razão. A fábrica foi apenas interditada, né?
- Ah bom! Você ainda não conhecia a expressão ''estourar'', filha?
Aproveitei o agito das crianças e estrategicamente fui falando:
- Alguém quer um sorvetinho ? E dei continuidade ao dia de domingo que terminou aqui, neste pequeno caderninho de capa azul, com quem não tenho segredos.
Raquel Garcia Punhagui Bachega é professora de Língua Portuguesa da rede pública de ensino em Marilândia do Sul
Crônicas é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 50 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato e foto para [email protected].


