Minha lembrança mais antiga é meu aniversário de cinco anos, não sei se por estar com sarampo ou pela caneta bic que ganhei de presente de meus avós maternos.
Os presentes eram simples e práticos naqueles tempos de infância, o bolo era cheio de bolinhas coloridas e feito em casa com recheio de goiabada, acompanhado de suco de laranja e tubaína. Nada de roupas finas e sapatos caros, os convidados combinavam com a simplicidade da época. Mas o que mais me interessou foi a caneta, mal sabia eu rabiscar, e me pus a pensar no que faria com ela. Suponho que minha mãe tenha pensado em guardá-la para quando eu ingressasse no primário. Ganhei também uma caneca daquelas que vinham escritas ''amo você'', de uma amiguinha da rua, por sinal uma rua bem empoeirada e cheia de valetas, que nos dias de chuva se transformavam em imensas cachoeiras - eu imaginava véus de noiva pulando delas.
Outubro já era calor e brincávamos até tarde, enquanto nossos pais conversavam na calçada. Lembro bem do cheiro de manacá e de vaga-lumes que saíam do mato ao redor de casa. Nem escola, nem trabalho, somente como compromisso o pega-pega, o lenço-atrás, as três mocinhas da europa....os meninos rachavam em uma disputa de bolinhas de gude, colecionavam figurinhas de craques de futebol, chaveiros e maços de cigarro vazios. As calçadas eram pequenas e de terra, os postes de luz pareciam árvores, por vezes até tentei subir em um deles, nos tempos de vento ficavam cheios de papagaios enroscados.
Minha mãe me chamou para dentro, ''vai lavar o pé para dormir'', eu não queria ir, estava tão gostoso brincar... Quando um ia embora acabava a brincadeira de todos. Fui para a cama pensando na caneta bic, mas o sono foi mais forte que minha vontade....acabei acordando e não me lembrava mais dela. Hoje sei que os mais preciosos presentes são aqueles que nos trazem muitas saudades.

CELIA REGINA PRADO é microempresária em Londrina

mockup