CRÔNICA - Amor à arte
Passava ali todos os dias. Não que a rua fosse um atalho, pelo contrário, acrescentava-lhe 100 metros ao trajeto diário até a prefeitura, mas precisava ser assim, de outra forma não trabalharia bem. Era um ritual que cumpria havia já um ano, desde que, procurando evitar um português que o incomodava todas as manhãs, decidira passar por aquela ruazinha. E assim a viu pela primeira vez.
Era linda! Esguia, delicada, branca, ali, entre as rosas, jasmins e margaridas. Os pássaros pareciam cantar só para ela, que sorria, com o olhar fixo em algum ponto do céu. O nariz arrebitado sombreava a boca bem feita, de dentes pequenos de crianças. Os olhos, apertados devido à amplitude do sorriso, pareciam dois riscos na parte superior do rosto oval e simpático. Um chapéu ornado com uma larga fita cobria o topo da cabeça, da qual desciam os cachos graúdos até os ombros estreitos e elegantes. Suas pequenas mãos seguravam o vestido rodado, como a proteger-se de um possível vento abusado. Mas nada seria capaz de perturbá-la...
Ela não sabia, mas era dona dos sonhos do secretário. Ele a queria, e não fazia questão de esconder. Saía muito cedo de casa só para ficar uma hora inteira ali, parado diante daquela casa, adorando seu anjo.
A dona da casa, percebendo a paixão do secretário de cultura, mandou chamá-lo e doou-lhe a estátua que ornava seu jardim. Hoje a obra faz parte do museu de arte do município.
* Sandra Pastorim, professora em Cambé





