CRÔNICA - Agruras de um sofá
'Irreconhecível, transformou-se naquele móvel que incomoda, um traste que precisa ser trocado sob pena de prejudicar a decoração mais elementar'
Aflição, padecimento, situação difícil, entre outros significados, considerei agruras o mais indicado para amparar a solidão de um sofá em seus últimos dias.
E isso porque ninguém quer um sofá usado. Uma reforma custa caro, é melhor comprar outro novo, dizem. Cavalo de Tróia sem surpresa ele reinventa o peculiar presente de grego.
Objeto sisudo e introvertido, o sofá adquiriu formas diferentes daquelas que tinha quando foi comprado em uma loja qualquer. Antes macio e confortável hoje ele padece deformado, rasgado e repleto das ranhuras feitas pelos gatos da casa que teimavam em fazer dele um apoio gostoso nas sessões de alongamento. Irreconhecível, transformou-se naquele móvel que incomoda. Um traste que precisa ser trocado sob pena de prejudicar a decoração mais elementar; sugerem os olhos severos da mulher de cabelos vermelhos.
Mas e a sua história? Os momentos em que passamos juntos, ele aturando minha total indiferença por estar hipnotizada por um programa idiota da TV. O sofá, sempre solícito, ali incólume, diariamente suportando as seguidas crises de cansaço da família. E o peso da responsabilidade.
Será que não foi isso que o tornou velho e destruído?
Recordei-me do poema ''O cacto'' de Manoel Bandeira, que aponta um admirável estorvo para a cidade: ''O cacto tombou atravessado na rua/quebrou os beirais do casario fronteiro/Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças/ Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de iluminação e energia''.
E agora para onde vai? Não poderá ser visto em algum fundo de vale, ou na beira de estradas em baixo de uma árvore a servir de apoio na pausa dos caminhantes. Isso não seria um fim digno. Um sofá é sempre o vilão das enchentes e da estética dos parques públicos.
Descubro a tempo que, no entanto, o paquiderme agora terá uma morada. Uma espécie de casa acolhedora de sofás? Nada disso, é um terreno em que todos devem ser oficialmente abandonados. Sem problemas para a cidade ou maiores traumas para o móvel. Ali esperará altivo pelo seu fim.
Maria Helena de Moura Arias é jornalista e trabalha na UEL





