CRÔNICA - Agosto de um pai
Era um agosto num passado não muito distante. A enfermeira apareceu no corredor silencioso da maternidade e me assustou dizendo: nasceu, é sua filha e é linda. Na hora emudeci, pois o ser objeto do amor não me entenderia. O tempo da quase inércia e mudez foi muito rápido e não menos maravilhoso, e logo você encheu a casa de sons e mudou meu viver. Cada momento se eternizava na memória marcando minha vida com sua unicidade e muitas surpresas.
Sua infância foi um misto de expectativa e medo da minha parte, pois o amor às vezes teme a fatalidade e antevê os fantasmas próprios do excesso de zelo, como da primeira vez que num ímpeto de liberdade você foi na padaria sozinha e fiquei com o coração aos pulos e a taquicardia só amainou quando a porta se abriu e nas mãozinhas trouxe o pão e o alívio.
No bosque tinha uma missão: ensiná-la a andar de bicicleta sem as rodinhas. Você quase histérica dizia: ''papai fica segurando, não largue''. Tive que te enganar e com muito medo soltei a garupa e o equilíbrio e as rédeas da sua vida naquela hora se iniciavam, não notei na hora e demorei a aceitar que na vida a independência do filho dói, mas não pode ser castrada.
Não havia melhor parceira de estripulias do que você, sempre disposta a subir no telhado, soltar pipa, dar estrela, jogar vôlei na varanda e no quarto à noite sempre tinha suas encenações teatrais que tínhamos que assistir sem desviar os olhos.
Fiquei muito eufórico quando lhe mostrei com exclusividade o rasante de uma águia no terreno baldio à caça de um rato, seus olhos se maravilharam e agradá-la era minha Supersena. Confesso que não mencionava como tudo aquilo era mágico e único e já ouvi você dizer que nenhuma amiga tua teve uma infância desfrutada com tanta intensidade.
Sei que depois de 20 anos não consegui muito sucesso como estes quando eu era seu tudo e meu sentimento de posse era extravasado, mas quero deixar límpido um aspecto: continuo crendo, continuo esperando sua chegada, sou teu, não há barreiras, o eterno não se pode seccionar, ele é atemporal assim como meu amor. Parabéns pelo seu vigésimo agosto.
Valdir Flora Batista é empresário em Londrina e pai da Renata





