Ainda garoto, quando os sonhos e as fantasias inocentes moram em nossa cabeça, ficava a imaginar as delícias de poder voar, ter super poderes, e se tornar invisível. Nossa! pensava, quanta coisa eu poderia fazer. Bastava uma dificuldade qualquer para logo estar ali, travestido e executando o feito extraordinário com minhas super forças.
O tempo foi passando, e com ele também os sonhos de criança foram dando lugar ao jovem que saía da adolescência. Outros tempos, outras transformações trazidas pela natureza. Não mais as fantasias infantis e impossíveis, agora o mundo real clamava por ações também reais. A cobrança era diária e cada vez mais pesada, estudo e trabalho.
Um dia, na aula de redação na escola, não obstante o burburinho característico dos demais colegas, me vi isolado em meus pensamentos. Para quem de fora visse, eu estava fazendo o trabalho pedido pela professora, concentrado, discorrendo com a caneta sobre as folhas de caderno que se preenchiam céleres.
Sem que me desse conta, havia fugido do tema proposto pela professora e desenvolvia a história, fantasiosa, de uma família numerosa, que acabara de invadir uma propriedade agrícola. Não sei por que esse assunto ficou teimando em minha cabeça, talvez eu me sensibilizara pela notícia da noite anterior, quando vi pela televisão a polícia fazendo o seu trabalho, desocupando uma área invadida.
Na história eu voltava aos tempos das fantasias, e lá estava eu, todo poderoso ajudando aquela gente. Ali, estava claro que eles tinham todo o direito de conquistar aquela fazenda. Que satisfação, ver mercenários debandando em retirada espantados e apavorados ante minha força. Não nego a alegria sentida recebendo os aplausos de gratidão após a vitória.
Só depois, quando o sinal da escola tocou e eu caí na minha realidade, que pude perceber, lendo a história acabada, que o menino herói do passado só existiu ali naquelas páginas, porque com a caneta na mão, se quisermos, podemos criar e fazer tudo, aliás, muito parecido com deus, só que..

José Roberto Brunassi é advogado em Londrina

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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