É in­fa­lí­vel a sin­ce­ri­da­de das crian­ças. Mi­nha fi­lha, de ape­nas cin­co ­anos, me per­gun­tou no úl­ti­mo ani­ver­sá­rio:
  - Pai, quan­tos ­anos vo­cê es­tá fa­zen­do?
  - 40, fi­lha. Por quê?
  Ela, sem pes­ta­ne­jar, me ar­ra­sou:
  - Nos­sa, pai, co­mo vo­cê é ve­lho!
  Ain­da deu tem­po pa­ra uma boa gar­ga­lha­da en­tre os ami­gos an­tes de ­cair na ­real. Meu ­Deus, eu já era um qua­ren­tão!
  Lem­bro bem do tem­po em que tam­bém acha­va ve­lho ­quem pas­sa­va dos trin­ta. Pa­re­cia o co­me­ço do fim. Ain­da ga­ro­to, vi meu pai pa­rar com as pe­la­das de fu­te­bol quan­do ti­nha pou­co ­mais de 40. Foi uma re­fe­rên­cia tem­po­ral. Co­me­cei a ­achar que, quan­do che­gas­se lá, já es­ta­ria pas­sa­do de­mais pa­ra cor­rer ­atrás da bo­la. Al­gu­mas pes­soas que­ri­das tam­bém par­ti­ram, doen­tes, na ca­sa dos ses­sen­ta. E eu já as con­si­de­ra­va ve­lhi­nhas, mui­to ve­lhi­nhas. Ho­je, cha­mo de ‘‘­voc꒒ os ses­sen­tões.
  É a ilu­são da ida­de. Em ca­da eta­pa da vi­da, cria­mos di­fe­ren­tes pa­râ­me­tros. Eu tam­bém acha­va enor­mes al­guns lu­ga­res que ho­je já não são. O quin­tal da mi­nha ca­sa, quan­do ti­nha oi­to ­anos, pa­re­cia uma chá­ca­ra. Ho­je sei que não pas­sa­va mes­mo de um quin­tal.
  Eu tam­bém acha­va uma via­gem ­sair da rua on­de mo­ra­va, em Ara­pon­gas, pa­ra che­gar à ca­sa da mi­nha avó, num bair­ro apa­ren­te­men­te dis­tan­te. Ho­je sei que o per­cur­so mal ser­ve pa­ra uma boa ca­mi­nha­da.
  O tem­po pas­sa, e me­lho­ra­mos. A ma­tu­ri­da­de é a prin­ci­pal mar­ca dos 40 ­anos. Que bom que a ida­de não se con­ta com os ­anos. Há ve­lhos ra­bu­gen­tos com 30 e ver­da­dei­ros mo­ços com 80. Que­ro che­gar à se­gun­da hi­pó­te­se. Con­ti­nuo com meu fu­te­bol, mi­nhas cor­ri­das, meu tê­nis. As fi­bras mus­cu­la­res ago­ra exi­gem ­mais alon­ga­men­to, mas o pra­zer é o mes­mo, e com a van­ta­gem da ex­pe­riên­cia.
  Da­qui 40 ­anos, es­pe­ro es­tar ­aqui pa­ra con­tar co­mo es­ta­rá mi­nha ve­lha mo­ci­da­de. En­tão, mi­nha fi­lha já es­ta­rá com 45. Ain­da se­rá uma ga­ro­ti­nha.

JÚLIO CESAR RODRIGUES é advogado



Crônicas é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 50 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato e foto para [email protected].

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