CRÔNICA - A lição que a escola deixa
Uma coisa que me inquieta é compreender o valor do trabalho. Como nós buscamos todos os dias uma forma de construir a nossa vida em função dele e nos reconhecemos com características comuns às pessoas com a mesma profissão. Só a privação dele, como em tempos de "pacotaço", fez com que eu ampliasse essa visão, também observei isso em muitas pessoas que desempenham cargo semelhante ao meu e na matéria-prima do meu trabalho.
Quem não considera o trabalho como um valor a ser buscado desconhece também o valor que a vida tem, já que todas as relações humanas são regidas por ele. Gosto de pensar que o meu trabalho ensina as pessoas a viver melhor. Como se ensina isso? Busco a resposta, diante de uma plateia de adolescentes alheia, aliás, eles moram em um planeta particular. Garotos e garotas que curtem whatsApp. Riem e se divertem com pequenas bobices próprias desse período. A responsabilidade, a maturidade é retardada ao máximo. Pressa para quê? No momento oportuno, a maioria deles vai escolher uma profissão ou uma profissão os escolhe.
Não por acaso, encontrei um homem jovem - só para não parecer velha - na rua de uma cidade vizinha que me abordou com um cumprimento muito comum nessas ocasiões: "Oi, professora. Como vai? Lembra de mim?". Nunca conseguimos responder a contento. Então olhei fixamente para a criatura diante de mim. A cobrança é inevitável: Tenho que me lembrar de alguma coisa, o ano que estudou comigo, o nome, onde sentava, mas nada, parece que o pensamento paralisa. Então, tudo que podemos dizer é algo do tipo: "Sua turma era fogo, hem!", já que isso pode ser dito sem medo de errar. Em seguida, ele refresca minha memória, apresenta orgulhoso o filho, a esposa, diz onde trabalha e termina avisando que qualquer dia vai fazer uma visitinha na escola.
Esses momentos me fazem constatar que as melhores lições são aquelas que constroem relações humanas verdadeiras, uma palavra que marca ou que define a nossa posição em relação à vida. Essas são guardadas para sempre, já que foram incorporadas. Muitas lições como cálculos matemáticos, pontos geográficos, gramática são esquecidas e podem ser facilmente recuperadas com o auxílio do amigo Google, no entanto, as relações afetivas positivas ou negativas são levadas para além dos muros da escola e vão marcar toda a vida.
Peço aqui licença para parafrasear a raposa que fala com o pequeno príncipe de cabelos dourados: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."
Luzia Irene Plaça de Farias é professora em Borrazópolis
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





