CRÔNICA - A grande performance
Olho em volta e percebo - suponho que como artista que sou - que é tudo uma grande, interminável e perfeita performance. Cenários, personagens e histórias transcorrem sem cessar; alguns são protagonistas, outros coadjuvantes, iluminadores, figurinistas, maquiadores. Algumas vezes somos público, outras atores; outras poucas nos aventuramos a escrever roteiros, a criar textos e viver personagens e ilusões que nem sempre acabam em aplausos ou elogios, nem nos tornam ricos ou famosos. Às vezes nos perdemos entre os cenários, as máscaras e a maquiagem, nos enganamos - e tentamos enganar os outros - com falas e marcações que não sentimos, esquecemos o diálogo. Nos deixamos seduzir pela luz dos holofotes, pelo barulho ensurdecedor dos aplausos, nos envolvemos numa história que não é a nossa.
Quase sempre esquecemos que o ator precisa ser dirigido por alguém mais sábio, precisa aprender, precisa adquirir técnica, desenvoltura, domínio, equilíbrio; precisa desenvolver a sua criatividade, a sua humanidade, tem que trabalhar seu talento com afinco e perseverança, pois um diamante sem lapidar é tão somente uma pedra e um ator que só decora e repete falas não passa de um papagaio. A terra é um palco de infinitos cenários pelos quais passamos, feito os personagens de um roteiro, nos quais interagimos, crescemos e temos a oportunidade de acrescentar preciosos detalhes à trama. Encontramos nesta história incontáveis ajudantes, protagonistas, mocinhos e bandidos, princesas em perigo, ladrões bons e rainhas más, nos deparamos com heróis e traidores, com sábios e idiotas, somos envolvidos pelo amor e pelo ódio, pela cobiça, pela compaixão, pelas mentiras que nos confundem e escurecem nosso caminho, e pela verdade que tudo revela e tudo desimpede, mesmo diante dos maiores desafios.
Olho em volta e me sinto parte real e viva desta peça fantástica que é a existência, com todos seus altos e baixos, seus incontáveis finais e recomeços, suas mil faces e vozes, os encontros e desencontros, os fracassos e as vitórias, a glória e a miséria, e uma imensa onda de gratidão me arrasta para o seio infinito e cálido de Deus que, apesar de ser o criador e diretor, sempre nos brinda a possibilidade de escolher nosso papel e de improvisar.
Paz Aldunateé professora de teatro em Londrina





