Em suas elucubrações mentais, advindas de um ''dolce far niente'' , permitidas pelos cabelos brancos, Desidério rendeu-se à modernidade. Ele que vem da primeira metade do século passado, onde os usos e costumes eram diametralmente opostos, conseguiu analisar friamente e percebeu como o povo daquele tempo vivia de maneira errada.
As famílias eram compostas, em sua grande totalidade, por casais legitimamente constituidos onde o pai era o chefe indiscutível do clã, não cabendo a nenhum membro, com raríssismas exceções, confrontá-lo. A mãe em posição submissa, colaborava para que a família crescesse em bases sólidas, alicerçada em princípios rígidos de moral e dignidade. Hoje todos emitem suas opiniões e traçam o seu caminho e cada um é líder de seu próprio destino.
Naquele tempo as mães arvoravam-se em donas dos seus rebentos e os obrigavam a irem à missa no domingo pela manhã. Hoje cada criança decide qual o comportamento a ser tomado. Os filhos, desde tenra idade, antes de irem dormir ou logo que acordavam, pediam aos pais que os abençoassem, sendo comum ouvir-se nas casa os prosaicos ''bença pai, bença mãe''.
As moças recolhiam-se ao anoitecer e os rapazes, depois do jantar, ficavam na esquina comentando as cenas do último filme da Brigite Bardot e depois de uma hora ou duas, se recolhiam para repor as energias tão necessárias à faina do dia seguinte, pois quase todos trabalhavam. Não existia naquela época legislação específica que os protegia do trabalho, que a família, com um entendimento tacanho, achava aquilo tão importante, tanto para ocupá-los como pela renda que provinha no final do mês.
Ainda sob uma visão retrógrada, as moças para engravidar precisavam ter marido que as assumissem tanto material como afetivamente. Hoje, com o advento da ''produção independente'' e as avós para criar as crianças, as coisas se tornaram bem mais fáceis. Os casamentos daquela época eram indissolúveis, conforme os ensinamentos da bíblia, ao passo que hoje com uma visão bem mais moderna, o casal se dirige ao cartório da esquina e após alguns minutos e uma pequena taxa, desfaz o pacto que fez com Deus, perante o altar.
De relance veio-lhe à memória alguma coisa que um padre falou, durante uma homilia, a respeito de um lugar chamado Sodoma, que pela insensatez e lascívia de um povo, Deus havia destruido. Mas ele, depois de tantos anos, não lembrava direito, e o povo é tão moderno e sábio que com certeza sabe os caminhos que quer trilhar.

Edson Medardo Scarchetti é bacharel em Teologia em Londrina

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