CRÔNICA - A ESCOLHA DO TEMPO
Então comecei a olhar para o relógio.
Sem novidade, os ponteiros diziam a mesma resposta de sempre, resposta que é tida como ordem: seguir.
Vi o ponteiro dos segundos avançar cada ponto, cada momento, para alcançar um ciclo para simplesmente dar início a outro. Submisso, seguia.
Desejei que ao menos um único segundo agisse contra a sua ordem natural. Se tal mutação acontecesse não saberia agir ou reagir, apenas queria ver o novo, saber o que seria possível ser alterado.
Mas não estava ao alcance do meu modesto desejo ou da revolta do trabalho contínuo dos ponteiros.
Eles cumpriam apenas o seu papel: o de marcar o tempo.
O tempo que foi, foi. O que fica é. E o que virá, apenas virá.
Marca que serve para situar-nos no tempo, nada mais.
Talvez sirva também para dizer-nos que não há mais tempo para a palavra não pronunciada, para o abraço que não foi dado, para a conquista não celebrada, pelo adeus não dito.
Talvez quisesse, ao certo, que o tempo voltasse, ou melhor, que se contrariasse para que eu pudesse fazer contrariar tudo o que fiz de mal feito. Bem ou mal, escolhas foram feitas. Assim como o tempo, elas sempre estão por perto, bem perto. Mas o fazer bem, mesmo que não seja bem feito, serve para ser compartilhado a fim de que o mal sucumba. Bem ou mal, escolhas existirão. Bem ou mal, segundos existirão. Bem ou mal, é preciso conciliar um ao outro. Como fazer? Talvez com a vivência daquilo que se foi. Do que adiantaria o passado para ser apenas um fruto da lembrança? Talvez seja esse o propósito do tempo, entre o segundo que se foi e o que virá.
Talvez eu deva olhar os ponteiros novamente.
A propósito, já olhou para teu relógio hoje?
Hellen Paula Pereira, estudante de jornalismo da UEL





