CRÔNICA - A construção do ser humano
Penso que somos incompletos quando nascemos. E, à medida que vamos interagindo com as pessoas e o mundo, vamos formando a nossa personalidade. A gente pega um pouco do carinho gostoso que a mãe nos dedica, do orgulho do nosso pai quando fala da gente exagerando nossas qualidades, atenta para valores de honestidade e do valor ao trabalho que vê na luta dos pais. Sonha com a família por dias melhores. Ouve o vô contando histórias engraçadas, causos antigos e, assim, vai se formando, acrescendo um tiquinho aqui, outro ali. O pai conta histórias da vida dele, dos tempos difíceis, da luta do seu povo, curiosidades, a gente escutando tudo com atenção, perguntando, querendo mais, crescendo.
Outro dia, pulei o muro da vizinha e peguei um caqui madurinho, meu pai me pegou no ato, ficou furioso, me deu a maior bronca. Nunca mais vou esquecer, jurei nunca mais fazer isso. Fiquei envergonhado, é ruim ficar envergonhado.
A professora de Português é inteligente, queria ser inteligente igual a ela. O professor de Matemática é um gênio, mas eu não gosto de matemática, então vou ficar só com o bom humor dele, que entra na sala sorrindo e vai embora sorrindo, muito legal. Agora o professor de Geografia é um tirano, grita, fala alto, tudo têm de ser do jeito dele, não gosto. Eu não pegarei nada, não quero ser assim. Tem dias que me dá uma preguiça, não quero ir à escola, sou adolescente, quero dormir. Mas, minha mãe não perdoa, acabo indo.
Dona Marlene é minha vizinha, o marido dela ficou doente, já não anda, fica na cadeira de rodas ou na cama deitado. Ela cuida de tudo, faz comida, limpa a casa, dá banho no marido, cuida dos filhos. Todo domingo vai à igreja, tem muita fé, vive rezando, jura que o marido vai voltar a andar. Tenho pena dela e dele. Vou pegar a fé dela, é muito grande, quero isso. Minha mãe trabalha demais e ainda encontra tempo para fazer suas orações. No domingo, prepara aquele almoço gostoso, toda a família reunida, gosto disso, eu quero isso para sempre. Mas a vida continua, outras pessoas e experiências virão, e eu só colhendo e selecionando. Construindo...
Sandra Haruko Shiguemoto Felizardo, auxiliar de serviços gerais, em Loanda.
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





