CRÔNICA - A caixinha
Foi num daqueles aniversários que pegam a gente com a carteira vazia, então não se espera muita coisa além dos bons desejos, beijos e abraços; mas como mãe é mãe e tira leite de pedra, a minha desenterrou não sei de onde esta caixinha de bronze com uma aplicação de porcelana colorida na tampa e veio me entregar logo cedo, com a cerimônia que se faz para oferecer alguma oferenda aos deuses. Parecia que aquela caixinha redonda continha todos os segredos do universo!... Ela me deu, dizendo: ''Guarde nela somente as coisas mais importantes'', e sorriu, enigmática, dando-me um beijo e um abraço especialmente caloroso e demorado. Depois, voltou ao seu café da manhã, pegou o táxi e saiu atrasada para o trabalho... Eu fiquei com a tal caixinha na mão, intrigada pelas palavras da minha mãe, observando-a de todos os ângulos e perguntando-me quais coisas tão importantes deveria guardar ali.
O tempo foi passando e eu, talvez de forma inconsciente, fui mesmo colocando dentro dela alguns objetos que adquiriram um significado todo especial por cada episódio que vivemos juntos. E, querem saber? Ela está realmente cheia de pequenos tesouros que me lembram o que é verdadeiramente importante nesta vida... E acho que chegou a hora de partilhá-los com todos.
Dentro desta caixinha guardo uma borboleta morta para me lembrar da brevidade e beleza da vida, uma bolinha de gude prateada para me lembrar que nunca devemos deixar que a criança em nós seja tirada do nosso espírito e esquecida em algum canto inexpugnável do nosso coração, sepultada e silenciada pelas obrigações, conflitos e deveres da idade adulta. Guardo também nesta caixinha uma aliança de latão, já meio esverdeada, que me lembra que tudo é cíclico, que não tem fim, que está sempre em movimento, em transformação, e voltando para nós. Guardo um pedacinho de uma barra de incenso para não esquecer do Paraíso e suas promessas, o perfume da minha alma que sempre quer voar em direção ao céu, e a misericórdia sem fim de Deus. Tenho ali uma pedrinha brilhante, pedacinho de uma montanha, que me lembra a força do meu espírito e a imutabilidade das leis divinas. E por último, há também dentro desta caixinha algumas folhinhas já secas, que com a filigrana da sua nervura me trazem à mente os meios surpreendentes e criativos que o nosso Pai utiliza para se comunicar conosco e fazer com que ouçamos a Sua voz... Ontem, acrescentei um pedacinho de barbante com tres nós, para nunca esquecer que todos estamos interligados, que as nossas ações têm consequências e que por isso precisamos agir em conjunto, nos comunicar, trocar experiências, crescer e aprender juntos, lutar por um mundo melhor fazendo a nossa parte alegremente, com fé e perseverança.
Estes são os meus tesouros, todos coisas simples, banais, que estão à nossa volta o tempo todo e que à primeira vista não valem nada... De vez em quando abro a minha caixinha e fico olhando para eles, lembrando mais uma vez quem sou e o que vim fazer aqui. Às vezes os tiro cuidadosamente, botando-os na palma da minha mão, e os apalpo, brinco um pouco com eles e os coloco contra o peito para sentir todo seu significado e para que este passe para meu coração e o renove, dando-me novas forças, mais esperança, clareza e determinação... E lembrando hoje a expressão no rosto da minha mãe e as suas misteriosas palavras, entendo o por quê daquele gesto tão solene ao colocá-la em minhas mãos. Acho que ela estaria contente se a abrisse e visse o que guardei ali dentro. Paz Aldunate é professora de teatro pazaldunatepalavras.blogspot.com





