CRÔNICA - A cadeira e a internet
Até meados do terceiro quartel do século passado as famílias tinham por hábito, principalmente nos finais de tarde, reunirem-se defronte suas casas e ficar discutindo o sexo dos anjos. Cada um tinha sua cadeira que com o passar dos anos amoldava-se ao porte físico do dono. Neste bate papo informal discutiam os problemas crônicos da nação e também o gol que o Pelé marcou no jogo final da última copa do mundo. Depois dos problemas da nação e do mundo terem sido resolvidos, cada um pegava sua cadeira e todos se recolhiam para ouvir algumas notícias pelo rádio e em seguida iam deitar-se para refazer as energias tão necessárias para a faina do dia seguinte.
Naquele tempo existia apenas o embrião do cartão de crédito, que era a indefectível caderneta. Baseados nisto, podemos afirmar que o dinheiro de plástico foi inventado pelo seu Manoel, dono do empório da esquina.
O sistema econômico não tinha ainda subdividido as classes sociais por letras. As famílias eram ricas ou pobres. A sociedade era nivelada por baixo e por isso não havia competição. A grande maioria das famílias não tinha carro, pois o pouco dinheiro que lhes sobrava era aplicado em bem de raiz, ou seja, na compra de um terreno e na construção da casa. Este procedimento deu ensejo ao aparecimento dos loteamentos que distavam 4 ou 5 quilômetros do centro da cidade e que na época eram considerados longe e para atingi-los era necessário fazer uso do ônibus circular.
A sociedade tinha um padrão de conduta moral e apesar de não ser escrito, todos obedeciam rigorosamente. O chefe de cada clã o impunha aos seus familiares. As moças quando iam ao cinema com o namorado tinham que levar o irmãozinho mais novo que ia, conforme se dizia na época, segurar vela. Durante o namoro, tanto o rapaz como a moça, sabiam os limites. Dificilmente ouvia-se dizer que um casal tinha extrapolado suas intimidades e quando isso acontecia o rapaz procurava o pai da noiva para marcar a data do casamento. Hoje, tanto moral como economicamente, o comportamento é totalmente diferente. Os pais, aproveitando as benesses dos bancos, endividam-se por 72 meses na troca do carro, usam e abusam do limite do cartão de crédito e envolvidos nos meandros financeiros, não acham mais tempo para orientar seus filhos, e estes por sentirem-se soberanos de seus destinos, locupletam-se à larga pelos caminhos da imoralidade e insensatez.
Edson Medardo Scarchetti é estudante de teologia e reside em Londrina





