Paulo Polzonoff Jr
De Curitiba
A Internet cria fenômenos interessantes. Primeiro foram as megaempresas virtuais, cujo valor de mercado supera, e muito, o patrimônio líquido. Depois foram os sites pornográficos que traziam em si não profissionais, mas pessoas comuns que de repente resolveram se expor aos olhos de curiosos ao redor do mundo. Há também o asqueroso fenômeno da pedofilia, catapultada pela rede. Agora mais um fenômeno é digno de nota: os críticos virtuais.
Os críticos virtuais são pessoas que entram em lojas de produtos culturais com a intenção de dar sua opinião sobre um livro ou filme. A leitura destas críticas não especializadas rendem interessantes discussões entre quem tem a avaliação de um livro ou filme como profissão na vida real. É inegável que as palavras dos leitores ou espectadores não têm valor do ponto de vista formal, mas são capazes de suscitar algumas conclusões no mínimo curiosas - e por vezes hilárias.
Primeiro a de que ‘‘O Homem que matou Getúlio Vargas’’, best seller do showman Jô Soares, na opinião dos leitores não é tão bom quanto o disse a crítica, sempre temerosa de bater de frente com unanimidades do porte (sem trocadilho) de Jô Soares. Quase a totalidade dos leitores que opinaram sobre o livro no site da Livraria Cultura (www.livcultura.com.br) têm-no como um exercício de marketing. Exemplo disso é o comentário de Tânia Câmara Baitello: ‘‘Apesar de todo senso crítico, senti-me vítima do poderoso marketing editorial ao comprar e (tentar) ler este livro de nosso genial showman Jô Soares. O livro é decepcionante por ceder ao humor barato, colocando o personagem em situações e construções tão primárias que não deu nem para rir. (...) Depois desse, não compro mais nenhum deste autor.’’
Outro exemplo de marketing que não é referendado pelos consumidores é o do filme ‘‘A Bruxa de Blair’’. No site da Amazon (www.amazon.com), as opiniões, de americanos, são bem claras: o filme não passa de um embuste. Eis o que escreve Lil Kitty: ‘‘O que é isto? Uma comédia? Não é assustador de modo algum! Este foi o pior desperdício de dinheiro num filme. Eu não poderia pagar para ver este filme novamente. Desculpe. Por favor não desperdice seu dinheiro, a menos que você seja um otário ou goste muito de rir.’’ E nós, brasileiros, acreditando que o filme tinha arrebatado multidões nos Estados Unidos...
A segunda constatação curiosa é a de que os consumidores de hoje são capazes de, num passe de mágica, fazer ruir obras em torno das quais já se criou uma aura de qualidade até então indiscutível. É o caso de ‘‘Cidadão Kane’’, filme de Orson Welles, de 1941, considerado em todas as listas como o melhor filme jamais realizado. Não é o que diz a imensa maioria dos que opinaram no site da Amazon. Laura, do Kansas, diz: ‘‘Cidadão Kane é monótono e chato. Ao término do filme, você nem quer mais saber o que significa ‘Rosebud’. (...) Eu não sou uma ignorante, eu amo filmes e os aprecio. Eu sou totalmente aberta a novos gêneros, mas, eu tenho de concordar, Cidadão Kane é absurdamente supervalorizado.’’ Outro consumidor, este de Nova York, é capaz de destilar esta pérola: ‘‘Cidadão Kane é um interessante filme B.’’ Há que se tirar suas próprias conclusões.
A maioria dos filmes resenhados, se é que se pode considerar isto uma resenha, são best sellers. No site da Livraria Cultura, por exemplo, não se lê resenhas de obras de autores clássicos da nossa literatura, como Machado de Assis ou Guimarães Rosa, nem de autores canônicos, como James Joyce. Em compensação, ‘‘Luxúria’’, de João Ubaldo Ribeiro, merece atenção de dezenas de leitores. Eis o que diz Marco Túlio dos Santos a respeito do livro: ‘‘O mundo está muito careta, cada vez mais conservador e moralista. E quando vemos atos sexuais que não sejam nem morais, nem muito higiênicos, estranhamos à primeira vista. (...) Este livro é a salvação para a geração de agora, pois só tendo o tipo de pensamento igual ao da protagonista do livro é que vamos salvar o mundo do tédio total.’’
Se no site nacional as figurinhas carimbadas de nossa literatura estão em baixa, no site da Amazon os poucos títulos de autores brasileiros geralmente contêm alguma opinião. E não são só os brasileiros que opinam. Machado de Assis provoca opiniões indignadas, como o de um leitor brasileiro que escreve, em inglês: ‘‘Machado é demais para a mente norte-americana. Se você nasceu nos Estados Unidos, não tente ler este livro, continue lendo aqueles livros baratos.’’ Clarice Lispector, outra que é ignorada pelos internautas brasileiros, recebe elogios por seu ‘‘A Hora da Estrela’’.
Mais uma constatação: Paulo Coelho, o mais vendido autor brasileiro da atualidade, tem leitores a sua altura. Uma Luciana, que não identifica o sobrenome, escreve: ‘‘Neste livro (‘‘Verônika Decide Morrer’’) tem de tudo: amor, insanidade, pensamentos, revolta. Linguagem é fácil, mas não deixa de ser culta. O assunto é bem interessante, descrição de lugares, os pensamentos e história de cada personagem, a corrida de vida de cada um deles (...).’’ Outra leitora, chamada Michele, escreve sobre ‘‘O Alquimista’’: ‘‘O livro é realmente um exemplo para todos nós seres humanos, nos ajuda a ir ao encontro de nossa lenda pessoal (nossos sonhos e objetivos de vida). Santiago não queria ser o que quizessem (sic) que ele fosse, ele foi fazer o que queria, foi fazer o que gostava da vida, conseguiu realizar seu objetivo, o que seria impossível para muitas pessoas foi possível para ele. Nós temos sonhos, temos que realizá-los porquê (sic) está em nosso coração.’’ Então tá.

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