São Paulo, 04 (AE) - Ao apresentar o primeiro número do "Suplemento Literário" do jornal "O Estado de S.Paulo", em outubro de 1956, o crítico Décio de Almeida Prado alertou seus leitores que a natureza do novo caderno seria literária e, portanto, artística. Como não compreendia arte sem plena liberdade de expressão e criação pessoal, Décio, um pensador independente, deixava claro que aquele suplemento não seria dirigido ao chamado "homem comum", eufemismo, que, segundo o crítico, "esconde geralmente a pessoa sem interesse real pela arte e pelo pensamento".
Ao recusar a ideologia canhestra do qualunquismo, a doutrina italiana do "homem comum", Décio de Almeida Prado não estava construindo um discurso elitista, mas chamando a atenção para um dos grandes perigos do jornalismo: a intransigente defesa de rebaixamento do discurso que, de tempos em tempos, ameaça a integridade do pensamento. Antecipando Pasolini, que definia o homem comum como um criminoso, matando o que há de melhor dentro dele e dos outros, Décio investiu contra a preguiça mental, defendendo o esforço e disciplina como alternativas para a indigência intelectual que ainda ameaça o País quase meio século depois da criação do Suplemento Literário.
Décio já exercia, desde 1946, as funções de crítico teatral do "Estado". Dedicou 22 anos de sua vida ao jornal, até 1968, escrevendo numa época marcante do teatro brasileiro, a do TBC, Arena e Oficina, e acompanhando desde a revolução de "Vestido de Noiva", dirigida por Ziembinski, até a provocação de "O Rei da Vela" por José Celso Martinez Corrêa. Projetado por Júlio Mesquita Neto e criado a partir de um projeto do professor Antonio Candido de Mello e Souza, o "Suplemento Literário" representou um marco no jornalismo brasileiro. Seu criador, em entrevistas, reconheceu várias vezes que a direção de Décio de Almeida Prado imprimiu ao suplemento sua marca pessoal.
Tanto que Antonio Candido jamais conseguiu separar um do outro: Décio conseguiu modular sua vocação vanguardista com o respeito pelo tom ensaístico mais antigo de outros colaboradores. Décio reuniu no "Suplemento Literário" as melhores cabeças da época, do crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes ao crítico de teatro Sábato Magaldi, passando por Lourival Gomes Machado e tantos outros que o espaço seria insuficiente para uma lista justa. Crítico da revista "Clima", de 1940 a 1944, Décio reuniu amigos, alguns do ginásio e outros da escola de Filosofia, para integrar a redação do suplemento do "Estado".
Oswald de Andrade os chamava de "chato boys", talvez pela seriedade dos artigos da revista "Clima", fundada por Alfredo Mesquita e Lourival Gomes Machado e, então, feita por jovens de 20 anos com a pretensão de mudar o País recorrendo à reflexão intelectual e não ao achincalhe. Os "chato boys" não ligavam muito para o apelido. Sincero, Décio achava "O Rei da Vela" um tanto ultrapassada, marcada pela histeria modernista dos anos 20, e nunca poupou o amigo Oswald de críticas.
Princípios - Fiel aos princícpios emitidos no texto de apresentação do primeiro número do "Suplemento Literário", Décio sempre cuidou para que não pairasse sobre ele a menor suspeita de favoritismo. Lançou nomes de importância fundamental na difusão da literatura estrangeira, como o crítico Anatol Rosenfeld e Leyla Perrone-Moisés, que publicou nas páginas do suplemento os primeiros textos sobre a vanguarda literária francesa (Robbe-Grillet, por exemplo).
Quando ninguém falava em nouveau roman, o suplemento de Décio já preparava o caminho para os novos escritores franceses, discutia filosofia e literatura alemã com Rosenfeld e dedicava páginas inteiras a cineastas praticamente ignorados pelos jornais. Décio assumia os erros por apostar nos novos, mas insistia no "erro" porque acreditava na oxigenação do novo, no acréscimo que a ousadia pode eventualmente trazer à arte.
Para o crítico, só era possível avaliar uma obra de arte em relação a certos cânones, mas reconhecia em autores revolucionários como Brecht a capacidade de colocar em dúvida o "acervo teórico do teatro ocidental", ao recorrer ao teatro chinês e japonês e atirar por terra os cânones e certezas dos críticos. Assim, sua principal lição aos leitores do "Suplemento Literário" e aos espectadores de teatro talvez tenha sido mesmo a de que ambos devem exercer seu espírito crítico, não aceitando passivamente, mas interferindo no processo de criação. Só assim ele deixará de ser um homem comum para assumir a condição a que está destinado: a de artista e criador.

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