O mais importante escritor da língua alemã deste século, Gunter Grass, é um homem que continua a incomodar os políticos e as classes conservadoras alemãs. Prêmio Nobel de Literatura no ano passado, dividiu metade da bolada que recebeu com uma fundação voltada à proteção dos ciganos. Talvez na raiz do gesto esteja a dura mocidade – depois de participar do horror da guerra, assim como tantos outros, ele também migrou dentro de seu país, e viu sua gente ser tratada como cachorro.
O século XX, agora realmente em seus estertores, recebeu de Grass um estudo especial – o livro ‘‘Meu Século’’, onde o autor lança mão de 100 textos curtos, cada qual correspondendo a um ano deste século, e faz um balanço (ou narrativa) do que foi esta faixa de tempo, sob sua ótica. Aqui no Brasil ele tem um estudioso, o professor de Teoria Literária da USP, Marcus Vinicius Mazzari, que na semana passada deu palestra em Curitiba enfatizando a característica de resistência de sua obra.
‘‘O Tambor de Lata’’, escrito em 1959, não só catapultou o nome de Grass ao pico da fama como se mantém entre os cinco maiores romances do século em língua alemã. A crítica que ele fazia sobre o conservadorismo de seu país no pós-guerra, desgostou muita gente com o romance, mas isso ainda era o princípio. Desde então Grass vem incomodando especialmente os direitistas e políticos da situação.
Ele é um autor que se pode chamar de ‘‘escritor da migração’’, como disse Mazzari. Nascido em Dantzig, cidade-estado que mesclava em sua população alemãos, polacos, judeus e uma etnia chamada cachúbios, Gunter Grass e toda sua família amargaram a difícil realidade dos migrantes. Eram tratados como ‘‘lixo’’, lembraria anos depois. Então, de certo modo, ele traz na alma a marca incômoda de ser um estrangeiro em sua terra. ‘‘A maneira dele escrever revela essa tendência’’, assegura Mazzari.
Embora trabalhe com o alemão culto, o escritor faz questão de colocar nos textos o dialeto cachúbio, em vias de extinção, como se fossem marcas digitais de seu passado. ‘‘Grass é um dos remanescentes dessa linguagem’’, afirma Mazzari. Assim como procura trazer à tona o dialeto ouvido em Dantzig, há mais de meio século, ele também remói feridas, volta-se contra as decisões governamentais, instiga com seu pensamento afiado. ‘‘Diria que ele é uma grande voz na esquerda democrática européia, mas basicamente um escritor que se imiscui nas questões alemãs’’.
O tambor de Gunter Grass há 41 anos vem rufando sem cessar. Apesar da distância espacial e temporal, o romance retrata com tal intensidade o mundo ‘‘da pequena burguesia, das pessoas miúdas’’, que qualquer leitor, em qualquer parte do mundo, verá em suas páginas sua própria existência refletida. O fascínio que ele exerceu sobre o professor Mazzari foi tanto que ele escreveu ‘‘Romance de Formação em Perspectiva Histórica/ O Tambor de Lata de Gunter Grass’’, lançado pela Ateliê Editorial.
Em ‘‘O Tambor’’ encerram-se o olhar sobre o passado nazista e uma advertência quanto ao futuro, comenta o teórico. ‘‘Ele tenta advertir o leitor das consequências que podem advir de um comportamento por assim dizer, apolítico, alienado. Essa, talvez, seja a principal conclusão deste livro: uma literatura de esclarecimento, mas também de advertência’’.
Vinicius Mazzari é da opinião que o romance é ‘‘o menos politizado no sentido consciente’’ em confronto com outros trabalhos do autor. O escritor já declarou sua preferência por títulos mais recentes, pois escreveu-os com maior consciência política. ‘‘Paradoxalmente a literatura não precisa ser politicamente correta – ele escreveu uma obra de gênio por volta dos 30 anos, mas não repetiu nenhuma que possa ser comparada ao ‘Tambor’’’, afirma o estudioso.

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