Tudo começou com uma molecagem. E acabou se transformando na mais incendiária polêmica intelectual desta década, com repercussões dentro e fora dos círculos dos iniciados.
Três anos já se passaram de sua deflagração, mas novas tomadas públicas de posição ameaçam vir à tona nesta temporada com o lançamento no Brasil do livro-bomba Imposturas Intelectuais (Record), de autoria dos físicos Alan Sokal (norte-americano) e Jean Bricmont (belga).
ReproduçãoJean Baudrillard: ‘‘Encontra-se em sua obra uma profusão de termos científicos. Quer os interpretemos ou não como metáforas, é difícil compreender que papel poderia desempenhar, a não ser transferir uma aparência de profundidade a banais observações sobre sociologia e história. Além do mais, a terminologia científica está mesclada com um vocabulário não científico empregado com semelhante ligeireza’’O livro, fonte da celeuma, é um ataque devastador às correntes teóricas batizadas pós-modernas. Em pouco mais de 300 páginas, ridiculariza alguns dos nomes mais representativos da intelligentsia francesa contemporânea como o filósofo Gilles Deleuze, o sociólogo Jean Baudrillard, a ensaísta Julia Kristeva, o arquiteto Paul Virilio e os psicanalistas Jacques Lacan e Félix Guattari.
‘‘Esta obra trata da mistificação, da linguagem deliberadamente obscura, dos pensamentos confusos e do emprego incorreto dos conceitos científicos’’ - anunciam eles no prefácio à edição brasileira. Os autores observam que a crítica não é dirigida para a totalidade da obra dos personagens enfocados, a qual deixam de julgar, mas visa sobretudo a apropriação abusiva e sem fundamento que eles fazem de conceitos da matemática e da física.
Para levar a cabo o projeto, a dupla analisa uma série de textos dos referidos intelectuais, reproduzindo e desmascarando as passagens que consideram mais levianas - tudo acompanhado de notas de rodapé com explicações corretas dos conceitos científicos deturpados. ‘‘Queremos desconstruir a reputação que certos textos têm de ser difíceis em virtude de as idéias ali contidas serem muito profundas. Iremos demonstrar em muitos casos que, se os textos parecem incompreensíveis, isso se deve à excelente razão de que não querem dizer absolutamente nada’’ - salientam.
ReproduçãoFélix Guattari: ‘‘Escreveu livros em parceria com Gilles Deleuze, os quais têm como principal característica a falta de clareza. Estamos bem conscientes de que o objeto de ambos é a filosofia, não a popularização da ciência. Contudo, que função filosófica pode ser preenchida por esta avalanche de jargão científico (e pseudocientífico) mal digerido? Na nossa opinião a explicação mais plausível é que esses autores possuem uma vasta erudição, embora muito superficial’’Algumas das ‘‘imposturas intelectuais’’, flagradas pelos dois físicos, são de fato ilegíveis. Repare neste trecho de Jacques Lacan, devassado pelos autores: ‘‘Em termos simples, isto apenas significa que num universo de discurso nada contém tudo, e aqui se encontra outra vez a separação que constitui o sujeito. O sujeito é a introdução de uma perda na realidade, porém nada pode introduzir isto, já que pelo status a realidade é tão plena quanto possível. A noção de perda é o efeito proporcionado pela instância da característica, que é o que, com a intervenção da letra que você determinar, localiza - digamos a1, a2, a3 -, e os lugares são espaços, por uma falta.’’
Alguém entendeu? E notem que o psicanalista pretende exprimir-se em ‘‘termos simples’’, como ele mesmo anuncia no início do parágrafo. Félix Guattari é outro psicanalista que, segundo a dupla de físicos, se esmeraria na verborragia obscura. Depois de citar um fragmento eloquente de seu livro Caosmose, Sokal e Bricmont sublinham que ele ‘‘contém o mais brilhante exemplo de mistura aleatória do jargão científico, pseudocientífico e filosófico que pudemos encontrar. Somente um gênio poderia ter escrito isto’’.
Jean Baudrillard também fornece matéria-prima para os dois autores. Após reproduzir uma sentença empolada do sociólogo, eles afirmam que os termos científicos aparecem em sua obra desprovidos de sentido e deslocados de contexto. Concluem: ‘‘É possível perguntar o que restaria do pensamento de Baudrillard se o verniz verbal que o reveste fosse retirado.’’
Mas além de denunciar o discurso vazio dos ilustres parisienses, Sokal e Brikmont disparam também contra o pensamento relativista, particularmente seu viés epistêmico, que consiste na idéia de que a ciência não passaria de uma narrativa entre outras e que por isso se revelaria incapaz de uma apreensão objetiva da realidade.
ReproduçãoJacques Lacan: ‘‘Ele exibe para os não experts seus conhecimentos de lógica matemática; porém sua explanação não é original nem pedagógica do ponto de vista matemático, e a ligação com a psicanálise não é sustentada por nenhum raciocínio. Seus defensores inclinam-se a responder a essas críticas recorrendo a uma estratégia que iremos chamar de ‘nem-nem’: esses textos não devem ser avaliados nem como ciência, nem como filosofia, nem como poesia, nem...’’O bafafá gerado pelo livro foi precedido por um célebre episódio protagonizado por Sokal, em 1996. Na ocasião, o físico escreveu um artigo sem pé nem cabeça - apinhado de citações da turma referida acima - submetendo-o para apreciação na revista acadêmica norte-americana Social Text.
Três semanas depois do artigo ser aprovado pelos editores e ganhar publicação, Sokal escreveu outro texto para a revista Língua Franca denunciando sua própria fraude. A travessura provocou mal-estar em redutos acadêmicos dominados pelas teses pós-modernistas, foi aplaudida por teóricos de esquerda e acabou recebendo involutariamente o aval de pensadores oportunistas de direita.
No Brasil, o arauto do liberalismo Roberto Campos se apressou em meter o bedelho na querela saudando a atitude de Sokal como um ataque em bloco à esquerda intelectual. Prontamente, o físico rejeitou a solidariedade esclarecendo quais eram seus verdadeiros alvos. A polêmica saiu dos círculos pensantes e foi parar na mídia, com destaque inclusive nas primeiras páginas de jornais como New York Times e Le Monde.
O artigo deflagrador, intitulado Transgredindo as Fronteiras: Em Direção a uma Hermenêutica Transformativa da Gravitação Quântica, foi incluído no volume traduzido agora para o público brasileiro. É uma pérola de eruditice canastrona. Sokal e Bricmont abriram um debate que está longe de acabar, sobre os parâmetros de rigor e honestidade intelectuais, dos quais as universidades locais não estão isentas de examinar.

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