Crítica também à esquerda
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segunda-feira, 21 de agosto de 2017
Marcos Roman<br>Reportagem Local 

Uma crítica aos recentes governos comandados por líderes da esquerda brasileira e latino-americana será levada ao palco da 49ª edição do Filo (Festival Internacional de Londrina) com a trilogia "Abnegação". Espetáculos da companhia paulistana Tablado de Arruar a partir de textos assinados por Alexandre Dal Farra, as três montagens serão apresentadas na Usina Cultural de terça a quinta-feira, com sessões às 19 horas e 22 horas. O evento conta com apoio do Grupo Folha de Comunicação.
"Escrevi o primeiro texto de Abnegação em 2014, antes do golpe e quando a presidente Dilma ainda estava no poder. A intenção era mostrar que apesar da esquerda fazer críticas às formas tradicionais de governo, ao assumir o poder
reproduziu o mesmo modelo de estado patriarcal e totalmente mafioso que sempre dominou o País. Em princípio seria apenas um espetáculo, mas após a estreia percebemos que o estava acontecendo no Brasil fazia parte de um ciclo mundial e sentimos a necessidade de ampliar a temática abordada. A partir daí surgiram Abnegação II e III, que estrearam em 2015 e 2016, respectivamente", explica Dal Farra.
Nas apresentações em Londrina, o autor optou por dar início à trilogia a partir de "Abnegação II O começo do fim", que será encenada nesta terça-feira (22). "Achamos que ela serve como melhor cartão de visita", argumenta Dal Farra, que divide a direção da montagem com Clayton Mariano. O espetáculo expõe com violência a trajetória contraditória de um partido de esquerda. Quem tiver mais de 30 anos e assistir a peça provavelmente irá se lembrar ainda que seja uma suspeita do caso do assassinado do ex-prefeito da cidade de Santo André, Celso Daniel, assim como do caso semelhante, relacionado ao ex-prefeito Toninho, de Campinas.

Os diretores Clayton Mariano e Alexandre Dal Farra não negam que o caso seja um dos materiais da pesquisa que originou a peça (caso este que ainda está em aberto pelo Ministério Público, há mais de doze anos depois do acontecido). No entanto, fazem questão de afirmar que não se trata de uma peça sobre o caso. "A história ali apresentada é inteiramente ficcional. Tudo ali é imaginado. Usamos o caso sem nenhuma pretensão documental. Nunca tratamos o assunto com intenção de investigar a verdade dos fatos. O caso Celso Daniel foi uma referência para nós, assim como o caso do Toninho, ex-prefeito de Campinas e outros tantos casos polêmicos da história recente brasileira. O foco da pesquisa não são os casos específicos, mas sim, os momentos em que a grande política nacional se aproxima do mundo do crime, da violência pura e simples, a ponto de se fundir a ela", explica Dal Farra.
Na quarta-feira (23), o grupo Tablado de Arruar encena a primeira parte da trilogia. "Abnegação" leva o público a uma reunião fechada, onde cinco integrantes de um partido político discutem um acontecimento do passado que vem à tona. São quatro da manhã, em uma fazenda de um dos membros do partido. Ao longo da madrugada, em meio a muitas garrafas de bebida, os envolvidos discutem e se desesperam, dançam e brigam ao som de hits sertanejos. A reunião segue sem que ninguém, nem o público, tenha certeza do que verdadeiramente se discute. Apenas uma coisa fica clara: uma decisão pode custar a própria vida de quem decide. O espetáculo foi indicado ao prêmio Apca (Associação de melhor autor para Alexandre Dal Farra.

Já 'Abnegação III', que será apresentada na quinta-feira (24) mostra cinco cenas paralelas, que se passam em casas de diferentes extratos sociais, no mesmo dia. Um padre que lutou contra a ditadura revisita a casa onde morou muito tempo atrás, um sindicalista visita a sua amiga rica, e lá encontra um jovem espirituoso e cínico; um advogado do partido conversa com um militante antigo (e sem nenhum cargo); um ex-guerrilheiro discute com a filha, bebe e se droga; um antigo operário decide se desfazer da sua vida atual, construída ao lado de uma ex-militante que o conheceu na época dos primeiros anos do partido. Cada uma das histórias aponta para um aspecto que sugere ao espectador um mundo a ser construído a partir dos fragmentos, sem que se saiba, porém, a forma como esses fragmentos devem ser unidos - e nem mesmo se eles são capazes de formar um todo coeso. Tem-se o tempo inteiro a sensação, no entanto, de instabilidade, de tensão, de iminência do fim.
Serviço:
Abnegação II O Começo do Fim, com Tablado de Arruar
Quando Terça-feira (22), às 19h e 22h
Onde Usina Cultural (Av. Duque de Caxias, 4.159)
Quanto R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Abnegação, com Tablado de Arruar
Quando Quarta-feira (23), às 19h e 22h
Onde Usina Cultural (Av. Duque de Caxias, 4.159)
Quanto R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Abnegação III Restos, com Tablado de Arruar
Quando Quinta-feira (24), às 19h e 22h
Onde Usina Cultural (Av. Duque de Caxias, 4.159)
Quanto R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
*Pontos de venda Bilheteria do Filo instalada no 3º Piso do Shopping Royal Plaza ou diskingressos.com


