O problema que se coloca logo de início é que o Oscar não é uma competição esportiva, uma partida de futebol, por exemplo, por mais que ele seja encarado como um campeonato e por mais que muitos tomem os resultados ao pé da letra, acreditando que tais ator e atriz que levaram a estatueta são os melhores do mundo.
É preciso não esquecer que o Oscar é resultado da votação de milhares, não o veredito de um só jurado. Cada membro da Academia elege ou julga melhor em cada categoria. E cada um procede segundo seus critérios, votando com o coração, com a memória, às vezes com o cérebro e provavelmente sem se colocar maiores dúvidas. Elege-se o ator ou o personagem? A preferência é pela simpatia, pelo talento, pelo compromisso com causas nobres ou pela imagem pública de alguém simples e sensível? Vota-se para premiar o desempenho deste ano ou para reparar injustiças e esquecimentos em outras temporadas? Deixa-se levar por tradições acadêmicas como aquela que recai mais em drama do que em comédias?
O votante, afinal, é humano, e o Oscar somente reflete a opinião da maioria. E já se sabe com que frequência (e com que efeitos graves) as maiorias se equivocam. Na segunda-feira, no day after, claro que haverá mais decepcionados do que rostos sorridentes - em cada categoria são quatro ''perdedores'' para cada ''ganhador''. Aos que voltarem para casa de mãos vazias convém dar uma passada de olhos na história do prêmio.
De imediato se reanimarão quando se derem conta de que pertencem (ou acabam de ingressar) ao clube dos esquecidos ao qual pertencem Chaplin, Hitchcock, Greta Garbo, Cary Grant ou King Vidor, conhecem? Se sentirão mais reconfortados quando lembrarem que não ganharam o Oscar ''O Falcão Maltês'' e nem ''2001 - Uma Odisséia no Espaço''; que ''Cantando na Chuva'' nem sequer foi nominado como melhor filme; que Martin Scorsese, quando candidato pela direção de ''Táxi Driver'' e ''Touro Indomável'', foi preterido respectivamente, por John Avildsen (quase ninguém se lembra dele) e por Robert Redford. E que este mesmo Oscar para melhor diretor nunca chegou às mãos de Robert Altman.
Também descobrirão que esta ''derrota'' ou este ''fracasso'' de agora abrirá portas para um provável triunfo amanhã. Negaram a Marlon Brando um mais do que merecido Oscar por ''Um Bonde Chamado Desejo'' e ''Viva Zapata''. Ele insistiu e logo ganhou com ''Sindicato de Ladrões'' - e foi só o primeiro, depois viria ''O Poderoso Chefão''. Passaram Peter Finch para trás em 1971 pelo trabalho em ''Domingo Maldito'', mas em 1976 o erro foi reparado e deram (postumamente) a ele o Oscar por ''Rede de Intrigas''.
Mas o melhor que podem mesmo fazer é evitar a voragem mediática e, com calma, lembrar que a carreira artística não é uma escada onde o Oscar brilha ilusoriamente no último degrau, e que não há pódium de chegada para o artista e nem recordes a quebrar. Em todo caso, passada a birra - se é que houve - e lidas todas as análises sisudas que explicarão porque este foi e este não foi, todos (e os ganhadores também) se lembrarão de que, ao fim e ao cabo, o Oscar não outorga certificados de talento. Que o verdadeiro triunfo nos domínios da arte e do entretenimento não se alcança numa única vez e para sempre.
E que, não poucas vezes, quem perde ganha. Está aí mesmo, bem debaixo de nossos narizes, o ''Cidadão Kane'' de Orson Welles, que em 1940, na hora da competição, teve que se conformar com um único Oscar para melhor roteiro original. No entanto, segue ele firme ao longo de mais de meio século em todas as listas dos dez melhores filmes de todos os tempos. Quase sempre em primeiro lugar.

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