Será que os habitantes da grande nação acima do Rio Grande estão afinal acordando? Ou seria mais apropriado afirmar que querem ir para a cama mais cedo e sem chateação? O fato, auspicioso aliás, é que os institutos de aferição de pesquisa mostraram seus números sobre a audiência da transmissão ao vivo da cerimônia do 80º Oscar, na noite do último dia 24 de fevereiro. E todas coincidiram: houve uma queda de 21% relativos a 2007, a mais baixa audiência nos EUA nos últimos 20 anos.
Uma facção mais ''patriota'' da mídia impressa arriscou antes um palpite otimista, algo entre 35 e 40 milhões, mas apenas 32 milhões assistiram a uma das piores edições da entrega das estatuetas em muito tempo, apesar da indiscutível qualidade dos filmes este ano em competição. Os resultados divulgados ignoram outros países com diferença de fuso horário e a veiculação através dos canais pagos.
O que contribuiu para este fracasso? A rede ABC, retransmissora da gala, logo que soube das cifras já tinha pronta uma bateria de explicações. A ladainha foi aquela mesma que se suspeitava: (1) por causa da greve dos roteiristas, encerrada em cima da hora, houve pouco tempo para preparar e promover a retransmissão; (2) os filmes concorrentes eram do tipo ''luto'', isto é, ''obscuros'' e ''deprimentes'', e nenhum indiscutível campeão de bilheteria.
Mas afinal, queriam o quê? É da própria história do cinema, que sempre se repete ciclicamente - tempos obscuros geram filmes idem, desta vez reflexo da pesada realidade em que George W. Bush mergulhou o país, interna e externamente. Outro fator a considerar: a abertura cada vez maior para a premiação de intérpretes de outros países, mexendo com os brios do público ianque sabidamente xenófobo quando se trata de cinema e disposto a ignorar sumariamente as novidades que falam outras línguas além do inglês.
É inegável, por mais que se ajeite um paliativo aqui, outro ali, que o quadro negativo que cerca o cerimonial é preocupante. Nem mesmo em 2003, quando os EUA invadiram o Iraque, a audiência foi tão baixa - naquela hora de crise aguda houve 33 milhões de telespectadores. Por outro lado, o segmento de audiência que menos interesse demonstra pela solenidade é o de jovens. Precisamente aqui a queda chegou aos 25% dos telespectadores entre 18 e 49 anos, o segmento mais cobiçado pela aflita massa de anunciantes.
Alguns já propõem soluções. A mais óbvia é cortar fundo aquelas três horas e alguma coisa de arrastado desfile de atores e atrizes engessados em textos de qualidade acima de duvidosa ao som de canções patéticas - mas aí a solução do mal é mais complicada, porque lida com a absoluta falta de talento dos compositores dos EUA.
E aquilo que sobrar que receba uma injeção de ritmo, agilidade, pressa, porque os tempos que correm são assim mesmo, correm frenéticos e acelerados. Inovações pulsantes ao estilo MTV, mesclar a experiência televisiva com a internet. E agora, depois do ''repouso'' da greve, no melhor estilo ''mãos à obra'', os roteiristas vão ter que afiar o engenho, já que arte anda escassa em Hollywood. O pouco que havia disponível foi gasto nesta premiação.

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