Quando a alta do dólar gelou as almas brasileiras, os promotores do Festival de Teatro de Curitiba sentiram o drama de perto, mas, como disse Leandro Knopfholz, ‘‘a crise acontece num primeiro momento; você tem que dar um jeito de ir em frente. Se parar é pior’’. Mesmo com essa disposição, o evento perdeu um de seus cartazes na trajetória: ‘‘A primeira coisa que fizemos foi cancelar o espetáculo de Gerald Thomas, ‘Na, o Rei Leão’, mistura de Napoleão com Rei Leão e Rei Lear’’, explica.
O diretor e dramaturgo é um dos mais assíduos convidados do FTC, mas como mora nos Estados Unidos, o contrato teria que ser fechado em dólar. ‘‘Graças a Deus a gente não fechou, porque senão estaríamos pagando o dobro do previsto’’, conta o empresário, aliviado. Houve também a desistência de dois patrocinadores.
O evento conta com patrocínios da Telepar Celular, do Governo Estadual, da Prefeitura Municipal de Curitiba e, ‘‘em outro nível’’, estão a Editel, Folha de São Paulo, Vasp e Lojas Renner. Segundo Knopfholz, os empresários ‘‘estão cada vez mais se conscientizando de como o produto cultural pode ser um veículo para eles’’. Mas, se por um lado o marketing cultural ganha terreno e se consolida, por outro o turismo cultural ‘‘é uma retórica e não uma realidade’’, afirma.
ReproduçãoGerald Thomas é um dos mais assíduos participantes do FTC, mas este ano fica de fora: ele mora nos Estados Unidos e contrato seria em dólarDe acordo com pesquisas realizadas em anos anteriores, cerca de 15% da platéia do FTC é formada por pessoas que residem fora de Curitiba. Mesmo assim não há um interesse aparente das agências de turismo em promover viagens de cunho cultural. ‘‘Os hotéis nos procuram muito mais para vender, do que fazer um pacote visando turistas que viriam ao festival’’, diz Leandro.
A Calvin Entretenimentos, que representa o festival, fechou contrato com a Brementur para montar pacotes turísticos, devido à intensa procura de pessoas interessadas de outras cidades. ‘‘Muita gente entrou na nossa página da Internet, e um número muito grande liga para o escritório. Isso mostra que a procura é grande, o que não existe é um aparato para absorver essa demanda.’’
Em breve, começa a circular a revista ‘‘Premiére’’, publicação dirigida que chegará aos clientes da Calvin Entretenimento e potenciais patrocinadores do Paraná, São Paulo e Santa Catarina. É um veículo interno que mostrará aos empresários a importância do investimento no setor cultural.
A revista, com tiragem de mil exemplares, trará todos os projetos da empresa para este ano. Ela terá periodicidade mensal ‘‘para alimentar as pessoas, para que não esqueçam do que vai acontecer’’, anuncia Leandro. Nas páginas de ‘‘Premiére’’ estarão contidas informações sobre o que a Calvin está promovendo, além de outras produções que sirvam de referência no sentido de sensibilizar as empresas a patrocinar eventos, ‘‘independentemente se pertencem a nós, ou não’’.
Uma grade com cartazes nacionais e internacionais está sendo colocada à disposição de possíveis compradores, pois sem patrocínio torna-se inviável a montagem de qualquer espetáculo. A bilheteria (venda de ingressos) não cobre as despesas de uma produção.
Da lista de títulos programados estão ‘‘Os Ignorantes’’, de Pedro Cardoso; ‘‘As Três Irmãs’’, de Henrique Dias; o Royal Ballet; e, na parte erudita, provavelmente constarão a Orquestra de Moscou, Orquestra Jovem de Boston, Orquestra das Nações e Orquestra de Zagrev. ‘‘Alice Através do Espelho’’, sucesso do ano passado, que vem para o Fringe, deverá cumprir nova temporada. ‘‘Estamos negociando patrocínio para montar mais dois espetáculos’’, avisa Leandro.
‘‘Também estamos sendo chamados para fazer o Festival Internacional de Teatro do Rio de Janeiro, e queremos lançar aqui, em outubro, o Festival Internacional de Circo, trazendo circos da Austrália e da Rússia.’’ Ao todo serão utilizados três teatros e duas companhias se apresentarão sob a lona, no mais fiel estilo circense.
Os balés de Deborah Colker e da dupla Chamecki-Lerner obrigatoriamente virão a Curitiba, através da Calvin. A empresa também passará a cuidar das performances e artes cênicas que se apresentarão no Estação Plaza Show. ‘‘Vamos mudar um pouco o conceito’’, promete Leandro.
Outra novidade são duas impressoras e todo um processo de impressão de ingressos (inclusive com a importação de bilhetes) importado dos Estados Unidos. Com esse material em mãos, pode-se agilizar a venda dos ingressos com meses de antecedência. Um espetáculo no Teatro Guaíra, por exemplo, tem seus bilhetes liberados com uma antecedência de 15 dias. ‘‘Quanto mais tempo tivermos para as vendas de ingressos e patrocínios, melhor será a bilheteria’’, calcula o empresário. ‘‘Se tivermos um cartaz em dezembro, o que nos impede de começar a vender hoje?’’, indaga.Chico CamargoLeandro Knopfholz, diretor do Festival de Teatro de Curitiba: ‘‘a crise acontece num primeiro momento; você tem que dar um jeito e ir em frente. Se parar é pior’’Zeca Corrêa Leite

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