Crise no Festival de Veneza
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de setembro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De veneza, especial para a Folha 2 
Primeiro foi o sequestro e o massacre das crianças do Cáucaso. Agora são as duas Simonas, voluntárias de Ong humanitária e também sequestradas no Iraque - ontem à organização do Festival de Veneza divulgou declaração oficial fazendo um apelo pela libertação das duas mulheres e de outros sequestrados. E desde que começou, há dez dias, o 61º Festival de Veneza virou alvo de críticas principalmente quanto à organização. Está hipertrofiado, e assim não pode ficar em 2005.
Na ânsia de voltar a ser o número um, desbancando Cannes, a Biennale concebeu um modelo 52 para quem no máximo poderia vestir um 44. Ainda repercute na imprensa internacional o último e desastroso final de semana em que o irritadíssimo diretor da Miramax, Harvey Weinstein, chegou a sugerir em pleno palco da Sala Grande que o diretor do festival, Marco Muller, fosse afogado na laguna veneziana com os pés num bloco de cimento. ''Leão de Ouro ao caos e ao desserviço'', disparou o semanário ''Variety''.
Outra publicação especializada, a americana ''Screen'', não deixou por menos, garantindo que ''é difícil falar de glamour este ano no Lido quando Johnny Depp tem que desfilar no tapete vermelho às 2 e 15 da manhã''. O diário francês ''Libération'' fala do fim de semana fatídico, lembrando que os dirigentes do festival, já não sabendo o que dizer, apontaram o sucesso da mostra como o grande responsável pelos incidentes. Aquela antiga referência estrangeira à desorganização dos italianos parece ter recebido um justificado reforço nos últimos dias. Tudo isso é também prato cheio para disputas políticas internas, no momento aquecidas pela fogueira das vaidades.
Os próprios habitantes da cidade se ressentem do gigantismo que vai engolindo o festival. A prefeitura de Veneza decidiu multar a Biennale porque a Piazza San Marco, sagrada referência planetária, foi invadida pela herética publicidade chamando para a para a primeira projeção mundial de ''Shark Tale'', a animação DreamWorks que será projetada num telão de 362 metros quadrados instalado no local. A previsão é de que os 5 mil lugares sejam todos ocupados para esta exibição ao ar livre que vai lotar a praça.
Para atormentar ainda mais o orgulho local e nacional abalado, a estatal Alitalia, a Varig deles, está nos estertores, de pires na mão à espera que decole algum milagre para continuar nos ares com as próprias asas. E na corrida aos Leões do Festival, a ''squadra azzurra'' não chegou a comprometer, mas também não provocou nenhum arrebatamento, podendo ficar fora da premiação principal.
Mas há compensações, e como. Hoje estão sendo inauguradas em Veneza a 9 Bienal Internacional de Arquitetura - Metamorph, e mostras dedicadas aos mestres Tiepolo, Turner e Picasso. Portanto, é possível e necessário contemporizar.


