O ministro da Cultura Francisco Weffort cumpriu uma agenda lotada durante sua visita a Maringá na sexta-feira. A convite do deputado federal Ricardo Barros e da chefe da representação do Governo do Paraná em Brasília, Cida Borguetti, o ministro, com a mulher Madalena Freire e o prefeito Jairo Gianoto, visitou pontos turísticos. Weffort disse que acha ‘‘belíssimo, ver uma cidade inteira ser inspirada por uma canção’’ da qual tirou o seu nome.
Marcos OliveiraFrancisco Weffort com a secretária de Cultura do Estado, Lúcia Camargo, e a secretária Mara Cremm, de Maringá: ministro quer que os paranaenses encaminhem muitos projetos pleiteando verbas
Natural de Quatá (SP), Weffort disse que pela proximidade e por ser interiorano, Maringá está na sua geografia sentimental. E que a beleza da cidade, inteira arborizada, eleva o senso de dignididade do ser humano e por isso deve ser um orgulho dos paranaenses e brasileiros. O ministro, sempre atencioso, ouviu as reivindicações de doze prefeitos da região. A maioria sobre a criação e aparelhagem de centros culturais, a manutenção de bandas de música e reformas de bibliotecas. Recebeu artistas e produtores culturais da cidade, representantes da UEM e a secretária de Educação e Cultura de Maringá, Mara Cremm, que falou sobre seus projetos, além de assistir a apresentações artísticas no Teatro Marista. No Teatro Calil Haddad fez elogios às alunas da Escola Municipal de Dança com quem tirou algumas fotos.
Weffort afirmou que é fundamental descentralizar a cultura do eixo Rio-São Paulo e insistiu em dois pontos: quer receber muitos projetos culturais de todos os municípios e enfatizou ‘‘a séria crise que atinge o Brasil não inviabiliza a cultura’’. Depois de participar de um jantar oferecido pela Prefeitura o ministro falou à Folha2. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:



Como o senhor pretende atender às necesssidades da Cultura no Paraná?
As relações do Ministério da Cultura com o Brasil são desiguais. Somos o país do eixo Rio-São Paulo e queremos ir para o norte, o sul e o nordeste. Não podemos negar: São Paulo e Rio ficam com 80% do mecenato enquanto o sul fica com 6% e o nordeste com 2,5%, mas temos de afirmar que o Brasil é muito mais do que isso. Como diz o mineiro: ‘‘O Brasil é grande mas Minas Gerais é maior.’’
No Paraná o primeiro caminho é intensificar as relações com a Secretaria de Estado da Cultura. Vocês tem uma secretária que está empenhada, que está trabalhando muito, e através dela o Estado pode adotar uma política mais ampla para os municípios. Além disso, tem os deputados federais, como o Ricardo (Barros, do PPB) que se empenhou em me trazer para conhecer Maringá, apresentou diversos projetos e se aproximou muito da nossa linha de trabalho. Este deve ser um exemplo a ser seguido pelos deputados estaduais, prefeitos, representantes da comunidade. Estou aberto para qualquer contato e muitos projetos de todos os Estados. É difícil ficar por dentro de tudo o que acontece nos seis mil municípios e para isso é importante que estes representantes apresentem projetos. Por maior que seja a ação do nosso Ministério, a atividade cultural do Brasil é muito maior.
Como o senhor acha que deverá ser a participação dos empresários em termos de apoio aos projetos culturais em 99? Será que a quebradeira de muitas empresas pode ter um reflexo negativo nos patrocínios?
Eu acho que esta ‘‘quebradeira’’ não é geral. Isso é um engano. Nós temos uma situação de crise muito séria mas de prazos muito curtos. Porque de duas uma: ou o País passa pela crise das bolsas ou ele quebra, mas quebra por muito tempo. Veja o exemplo dos países da Ásia, veja a Rússia, não é o que ocorre com o Brasil. No caso do Brasil a crise é séria, preocupante, mas afeta nossa capacidade de decidir sobre a reforma fiscal. Na medida em que soubermos fazer a reforma vamos sair do buraco. E mesmo numa situação de crise as empresas são obrigadas a aguçar sua sensibilidade investindo em marketing para competir. Não quero a crise. Sou contra. E não vejo porque, necessariamente, a crise inviabiliza uma política de cultura. Investir 4% do imposto para a cultura é uma parcela muito pequena. Os investimentos caíram no ano passado por causa da Copa do Mundo, das eleições e da privatização de muitas empresas. Neste ano eu acho que existe espaço, mesmo na crise, para uma política de cultura. E o valor alto do dólar pode até melhorar o turismo e a cultura dentro do Brasil.
Que áreas de seu ministério terão prioridade este ano e qual a verba destinada ao setor?
A verba é de cerca de R$ 550 milhões, cerca de 15 a 25% a mais, em relação a 98. (Para o Paraná o orçamento é de R$ 38 milhões - R$ 21 milhões para a secretaria e restante para a TV Educativa, a Biblioteca, o Museu Paranaense e o Teatro Guaíra). A prioridade do Ministério para 99 é o Patrimônio Histórico, um setor importante. Através de investimentos de R$ 200 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), estaremos beneficiando diversos centros históricos como São Luis, Salvador, Ouro Preto e alguns em São Paulo e Rio.
E quanto às outras manifestações culturais?
O cinema também é muito importante, aumentou bastante a sua produção. Em 1994 produzimos apenas quatro filmes e de 95 a 98 produzimos 90. E ainda é pouco porque temos uma oferta de quase 300 títulos, o que produzimos é menos de 10% do total. O prêmio Globo de Ouro para o filme ‘‘Central do Brasil’’, aconteceu depois de termos dois outros filmes indicados para o Oscar. Estaremos utilizando linhas de crédito com juros subsidiados, para a multiplicação das salas de exibição que hoje estão engarrafadas. Também é importante a música popular. Só em Pernambuco estamos ajudando a equipar com instrumentos 29 bandas. As bibliotecas públicas também receberão incentivos. Não faremos construções, mas podemos equipar, instalar máquinas nas bibliotecas. Queremos receber solicitações dos professores, da comunidade identificando seus problemas. Estamos trabalhando muito pelo teatro e as artes cênicas. O fato de priorizar algumas atividades não representa que não vai dar para outras. Cada setor conquista o seu pedaço.
O senhor concorda que os preços do ingresso estão tirando muito o público do teatro? Onde estão as campanhas de popularização?
Acho que o preço tem que diminuir. Precisamos de uma política mais aberta para aumentar o número de participantes e do público e diminuir o preço do ingresso. Não podemos imaginar para o Brasil um teatro democrático ligado a vários setores da população com estes preços. Acho que podemos programar a mesma peça para todos o Estados, difundindo o mesmo espetáculo no Norte e no Sul do país, e isso pode baratear o preço.
O senhor enxugou a máquina do seu Ministério, reestruturando secretarias como medida econômica ou de desburocratização?
Não enxuguei nada, no caso da Cultura ela já é enxuta desde o começo. A Cultura tem engordado um pouquinho, menos do que deveria. Se tivéssemos enxugado o que queriam desde 95, ela já estaria morta. Não dá para reduzir. Se isso acontecer teremos uma situação de crise que ninguém está querendo. Mas ao contrário, nós estamos crescendo.
O senhor quer receber muitos projetos de todo o Brasil. E se isto realmente acontecer?
A única chance de conseguir o dinheiro é mandar o projeto. Se não tiver projeto adeus à possibilidade de conseguir recursos. Eu insisto para que cidades como Maringá, Londrina, todas do Paraná e do Sul do Brasil preparem projetos e os enviem porque um abre caminho para outro. Nem todos vão conseguir recursos, mas quanto mais forem apresentados mais conseguiremos.

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