É claro que a idade do lobo, ou a crise dos quarenta, varia muito de tratamento cinematográfico. Tomemos um Bergman, por exemplo. Em tempos áureos, o mestre sueco espremeria a alma de seu personagem e assombraria as platéias com meia dúzia de longos, metafísicos planos-sequência em preto e branco. Ou um Claude Lelouch, estilista deslumbrado rodopiando a câmera em busca de azares e coincidências da vida ao som de Francis Lai. Já no caso da ‘‘maison’’ Disney - ou a via americana por excelência - a conversa é bem outra. Fantasia familiar, e estamos entendidos.
Em ‘‘Duas Vidas’’, que entra hoje em cartaz em várias salas do paraná (veja a programação de cinema na página 4), comédia delicada e amável, Bruce Willis é Russ Duritz, um inspirado self-made consultor de imagens, ou assessor de celebridades - a maioria do mundo esportivo. Na véspera dos 40, ele é viciado em trabalho, e se tornou um homem glacial, divorciado de senso de humor, alguém desprovido de humildade e com potencial afetivo abaixo de zero. A secretária Janet (Lilly Tomlin) e a sócia Amy (Emily Mortimer) tentam e fazem o melhor que podem para conviver com Russ e humanizá-lo.
Uma noite, Russ suspeita que há um intruso em sua casa. Ele investiga e acaba encontrando o garoto Rusty (Spencer Breslin), com cerca de 8 anos e que misteriosamente viajou 30 anos rumo ao futuro para tomar de assalto a fortaleza onde ele mesmo se escondeu, agora solitário e empedernido. A idéia é capturar e enternecer o coração do adulto, durante o processo. Apesar desta enunciação de certo modo simplista, ‘‘Disney’s The Kid’’ acaba interessando mais do que se supõe de início, menos em consequência da direção
Uma boa dose desse interesse corre por conta do roteiro de Audrey Wells. Ela é particularmente cuidadosa quando se refere a esta intrincada relação entre o que fomos em criança e o que nos tornamos quando adultos. E a moça parece ter uma habilidade privilegiada quando escreve diálogos espertos e engraçados, sempre valorizados por Bruce Willis. O ator, aliás, é muito mais rentável trabalhando com textos leves e/ou engraçados. Quem viu na época (ou reviu recentemente, via cabo) a série policial ‘‘A Gata e o Rato’’ sabe que Willis é bem mais confiável quando tem um consistente trânsito em comédia. Estrela de comerciais televisivos, Spencer Breslin é outra participação marcante. Mas é a estupenda Lily Tomlyn que rouba todas as cenas, e faz isso sem nenhum esforço ou conduzida pela direção de Jomn Turteltab. Puro talento.