Crimes e castigos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de abril de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>Especial para a Folha 2 
Crimes em Primeiro Grau (veja a programação de cinema na página 2) é um filme que pode se tornar memorável unicamente pela ausência de lógica e pelo desperdício de dois atores refinados, Morgan Freeman e Ashley Judd, que já formaram bela dupla em Beijos que Matam, um thriller eficiente realizado há cinco anos. Quem assina é Carl Franklin, realizador com talento confirmado no ótimo O Diabo Veste Azul, de 95, mas aqui conduzindo uma história de maneira estranhamente desleixada, com montagem mal recortada, personagens superficiais e um final de arrepiar pela dimensão da incoerência.
A fonte para o roteiro é uma novela de Joseph Finder, autor especializado em intrigas políticas internacionais. No caso deste High Crimes, com desdobramentos domésticos.
Em São Francisco, uma promotora de renome, a toda-poderosa Claire (Ashley Judd), é feliz com o marido Tom (Jim Caviezel, o suave desertor de Além da Linha Vermelha). Atualmente o casal trabalha com prazer e tenacidade para aumentar a família. Tudo caminha bem, até que um esquadrão da SWAT prende Tom no centro da cidade. A acusação: assassinato, daquela espécie subreptícia, bem ao estilo militar. Ao que tudo indica, por trás do semblante comum do acusado se esconde um dossiê abarrotado de atividades secretas e ilegais em nome de Forças Especiais. Claire descobre que andou dormindo quase com o inimigo, alguém agora acusado de um massacre de civis em El Salvador, há uma década. Mesmo assim, e diante da fragilidade do advogado militar designado para o caso, ela pretende defender o marido. Mas vai logo tropeçando na nebulosa teia da corte militar ultra-secreta que deverá enfrentar. Claro, ela urgentemente precisa de uma ajuda experiente e tão letal quanto o outro lado. É onde entra Charlie Grimes (Morgan Freeman), ex-advogado militar com sério problema etílico e sólida reputação de perdedor. Mas também com sede de vingança corporativa. A partir daí, complicações se multiplicam: a casa de Claire é grampeada, testemunhas e documentos desaparecem, ela e Charlie são ameaçados à noite por anônimos personagens e até são atacados e quase mortos num incidente automobilístico.
Poucas coisas são tão frustrantes e aborrecem mais um cinéfilo de primeira hora do que um final implausível para um filme de tribunal, um efeito de choque que se rende a insensatas manobras extra-legais tornando ainda mais indigno o que já vinha claudicante ao longo da narrativa. E se você aceitar passivamente este final de Crimes em Primeiro Grau, então deverá oficializar a recusa de tudo aquilo que conduziu até o desfecho.
Martin Scorsese já disse que odeia dirigir enredos complicados - é muito mecânico e consequentemente muito aborrecido. Além do mais, ele está menos interessados naquilo que os personagens farão a seguir do que em suas motivações. No caso de High Crimes, o diretor de Taxi Driver estaria entediado à morte: o filme tem mais idas de vindas do que o conflito entre judeus e palestinos. Infelizmente, nos dois casos, nada faz o menor sentido.


