'Crimes Delicados', inspirada na repressão militar, estréia sexta
'Crimes Delicados', inspirada na repressão militar, estréia sexta15/Mar, 16:21 São Paulo, 15 (AE) - Absurdo e humor negro dão o tom da peça "Crimes Delicados", de José Antônio de Souza, que estréia sexta-feira no Teatro Guairinha integrando a programação do 9.º Festival de Teatro de Curitiba. Sob direção de Antônio Abujamra, com Paulo Goulart, Nicette Bruno e Bárbara Bruno do elenco, o espetáculo inicia temporada em São Paulo no dia 30, no Teatro Ruth Escobar. Curiosamente, essa será a segunda encenação de Abujamra para esse mesmo texto. "Antes de mais nada, o texto é bom", argumenta ele. "E eu acabei de ler o romance "Paixões Alegres", de José Antônio, um livro tão bom que fiquei com vontade de voltar à sua dramaturgia". Nascido em Januária (MG) em 1940, José Antônio iniciou sua carreira teatral como ator e diretor aos 20 anos em Belo Horizonte, de onde mudou para São Paulo no início da década de 70. Discreto como todo bom mineiro, não faz muito alarde de sua criação, mas tem motivos para orgulhar-se de sua carreira de escritor. Ele é o autor de peças como "Cantos Peregrinos" e "O Espartilho", de roteiros de minisséries como "Rabo de Saia" e "O Portador" e da novela "Tudo ou nada". "Tive gripe, piriri, dor de dente e problemas no nervo ciático para escrever 150 capítulos", relembra José Antônio. Mas a novela serviu para testar o fôlego e o estimulou a levar em frente o antigo projeto de um alentado romance. Nasceu assim "Paixões Alegres" (Editora Globo, 730 págs.), elogiado pela crítica e indicado para o Prêmio Nestlé de Literatura. Ambientado na cidade de Januária na década de 50, o livro conta a história da paixão de um garoto de 13 anos pela mulher de um primo, uma paulista de 25 anos em férias na cidade. Uma história que cativa o leitor pelo equilíbrio entre a delicadeza e a intensa sensualidade de um amor inusitado, cheio de idas e vindas, numa narrativa na qual o tempo vira um personagem. Repressão - A peça "Crimes Delicados" foi escrita em 1973, dois anos depois encenada no Rio por Aderbal Freire Filho e, em 1977, por Abujamra, em São Paulo. A trama aparentemente absurda conta a história de um crime no qual a vítima oferece, digamos, uma certa resistência para morrer. Os porões da ditadura militar foram a fonte de inspiração do autor para criar o casal de classe média (Goulart e Nicette), que resolve cometer um crime, simplesmente porque está na moda. Estarrecido com o que chama de crimes consentidos pela classe média, decidiu criar a peça. "No auge da ditadura, durante o governo Médici, embora a censura fosse muito forte, as notícias de torturas e morte pelos agentes da repressão sempre vazavam", diz José Antônio. "No início, a perseguição era aos comunistas, depois aos subversivos e, a partir desse conceito vago, a qualquer um que se opusesse ao sistema". O mais terrível, para o autor, era a consciência que se tinha desses crimes no fundo desejados. "Havia um certo alívio no extermínio da ameaça comunista; um mal necessário, desde que não atingisse os próprios filhos", diz. "Na época que escrevi essa peça, diziam que eu estava delirando, porém, o que mais me preocupava era a possibilidade daquele sangue todo passar a morar lá dentro da alma da gente", diz. "Eu achava que o mais perigoso era o efeito na cultura daqueles assassinatos no porão". Nada tinha de delírio, no entanto, a notíca que deu o mote para a criação, uma ação de extermínio "malsucedida" do famoso esquadrão da morte, no Rio. A denúncia do sobrevivente de uma chacina, publicada no jornal "Última Hora", narrava como um grupo de policiais recolhia favelados num camburão para assassiná-los nos chamados locais de "desova" da Baixada Fluminense. Numa dessas "ações", ele foi o primeiro a ser empurrado para o camburão que parou várias vezes não só para recolher mais gente, como para retirá-los e assassiná-los. "A cada parada, olhavam para ele, mas não o retiravam". Na parada final, foi jogado no matagal com outros três homens e recebeu vários tiros, mas sobreviveu para contar. "Esse homem morreu e ressuscitou várias vezes numa única noite", diz José Antônio. "É possível fazer um paralelo entre esse casal e seu crime e a atitude da classe dominante que tenta livrar-se pelo extermínio da classe dominada", diz Goulart. O misto de brutalidade e banalidade fazem a química de Crimes Delicados, encenado por Abu num ritmo alucinante. "Estou exaurida com os ensaios", diz Nicette Bruno. "Eu e Nicette já fizemos 14 peças juntos e eu arranco a alma dela porque sei que ela sabe que o palco não é tábua, é precipício", diz Abu. (B.N.)





