São Paulo, 30 (AE) - A partir deste fim de semana, o público paulistano poderá conferir o irreverente exercício de linguagem de Antônio Abujamra na direção da peça "Crimes Delicados", que estreou no 9.º Festival de Teatro de Curitiba, dividindo a opinião do público e da crítica. Alguns gostaram - outros nem tanto - da opção do diretor em levar ao extremo, em sua encenação, o tom de comédia absurda já presente no texto de José Antonio de Souza.
Mas o público curitibano, que esgotou com antecedência os ingressos para o espetáculo lotando as sessões no Teatro Guairinha, não se decepcionou com o elenco. Nicette Bruno, Paulo Goulart e Bárbara Bruno realizam com talento a bem-humorada e difícil proposta do diretor.
"Crimes Delicados" foi escrito pelo mineiro José Antonio na década de 70. Sua intenção era denunciar a conivência silenciosa da classe média com os crimes ocorridos no porões da ditadura militar. Daí o tom surrealista da trama, na qual um casal decide cometer uma série de assassinatos simplesmente porque está na moda. Para "ensaiar", começam matando seres desimportantes, como os peixinhos, o gato, o cachorro e, planejam, a empregada.
A peça foi encenada pela primera vez em 1975, no Rio, por Aderbal Freire Filho e, em 1977, por Abujamra, em São Paulo. "Foram dois rituais distintos: a montagem de Aderbal era plasticamente muito bonita e tinha um compasso mais lento; a de Abujamra era operística, enveredava pelo caminho da farsa", diz José Antonio.
Repetição - O tom operístico é mantido e até reforçado na nova montagem de Abu, que estreou em Curitiba sem a presença do autor. Uma voz em off noticia, antes de o espetáculo começar, a morte de um jovem por causa do roubo de um tênis. E é sobre essa visão da violência contemporânea - a um só tempo banal e absurda - que o diretor trabalha.
A cena inicial do espetáculo, na qual o casal Lila (Nicette) e Hugo (Goulart) discutem sobre o desejo de assassinar
é repetida várias vezes, em ritmos diferentes, desde o rap - que arrancou risos da platéia curitibana - até a ópera. Se a repetição ao infinito de notícias envolvendo crimes violentos acaba por anestesiar os sentidos, tornando-se apenas incômoda rotina, no palco, essa mesma repetição tem o objetivo de reforçar o absurdo que é a banalização da violência.
O casal Lila e Hugo não vê nenhum motivo para refrear seus instintos, afinal, de nada vale a vida de uma empregada. Bom, pelo menos é o que imaginavam, até tentarem eliminá-la. "Internamente, o que está em cena nos faz pensar até onde podemos ir na conivência com a violência", diz Nicette. "Externamente, Crimes Delicados, da forma como foi dirigido por Abu, é uma exercício de interpretação fantástico: difícil e estimulante." Serviço - Crimes Delicados. Comédia. De José Antonio de Souza. Direção de Antonio Abujamra. Duração: 1h30. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 20,00 e R$ 25,00 (sábado). Teatro Ruth Escobar - Sala Dina Sfat. Rua dos Ingleses, 317, tel. 289-2358. Até 27/5

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