O Imperador D. Pedro II foi um humanista, e talvez esse traço de sua personalidade tenha se tornado ainda mais intenso depois da morte do fazendeiro Manoel da Motta Coqueiro, por enforcamento, acusado de um crime horrível, tendo assassinado oito pessoas de uma família. Rico, dono de cinco fazendas, membro do Partido Conservador, nada disso lhe valeu para obter a graça imperial, que era a última instância para se safar do veredicto. No dia 6 de março de 1855, uma terça-feira, seu corpo balançou no vazio do patíbulo.
Menos de um ano depois vinha a confirmação de sua inocência e D. Pedro II nunca mais negaria a graça imperial. Esta história ocorrida em Macabu, localidade pertencente à província de Macaé, no Rio de Janeiro, é contada em detalhes no livro ‘‘Fera de Macabu’’, do jornalista Carlos Marchi, que está sendo lançado pela Editora Record.
‘‘Eu sou inocente. Minha maldição é que esta cidade vai pagar cem anos de atraso pelo que me faz’’, gritou Coqueiro no alto do patíbulo. A maldição enraizou-se com tanta força na pequena Macaé que o próprio livro de Marchi é um testemunho eloquente desse peso secular. ‘‘Ele é produto da minha culpa’’, disse o autor para a Folha2. Mais adiante, comentou: ‘‘Este livro não se destina a provar que Coqueiro era inocente. Levantei indícios que me deram essa segurança.’’
ReproduçãoLivro de Carlos Marchi resgata fatos que ocorreram na província de Macaé/RJ (foto) no século 19 e ainda hoje transitam entre a lenda e a HistóriaA vida do fazendeiro começou a ruir quando ainda todos os pilares eram sólidos. O homem amasiou-se com uma jovem chamada Francisca, filha de Francisco Benedito, morador de sua propriedade. Ao saber que ela estava esperando um filho, a primeira intenção de Coqueiro foi tirar a família do local, mas o colono fincou pé, querendo um dote à altura por estar ciente da gravidez da moça.
Numa noite de tempestade, no mês de setembro de 1852, um grupo com cerca de quatro a cinco homens entrou na casa do agricultor e, a golpes de paus, facão e foice, dizimou a família. Por ironia apenas uma moça se salvou: a filha mais velha de Francisco, a grávida, que se encarapitou no alto de uma árvore.
As evidências eram claras para a Justiça de que o mentor do crime seria Manoel da Motta Coqueiro. Como este, a princípio, não desse muita importância ao fato de sua condenação, o processo evoluiu com mais força do que ele previa. Outro erro foi trocar de advogados, sem que houvesse álibi contundente para mudar os rumos cada vez mais perigosos. Foram três anos de pesadelo fatal.
Enquanto isso ocorria por um lado, por outro havia o papel da imprensa insuflando o caso. Como nesses idos os jornais da cidade de Campos eram reproduzidos no Rio de Janeiro, pessoas contrárias ao fazendeiro começaram a plantar nas folhas do interior notícias inverídicas, com a finalidade única de fechar os caminhos de Coqueiro. Conseguiram, apesar das evidências de que este era benquisto por aqueles que o conheciam. Aparentemente, não tinha inimigos.
Carlos Marchi conta nas 358 páginas do livro essa história, mas deixou para o final da obra a revelação do assassino. ‘‘Se eu contar quem foi, ninguém vai ler o livro.’’ A narrativa, escrita num tom cinematográfico, passa muitas vezes pelo mandante do crime, adiantou o autor. Sabe-se apenas que é uma pessoa próxima ao condenado. Aliás, o próprio Coqueiro veio a descobrir, ainda na cadeia, no lugar de quem estava perdendo sua vida.
Cartas escritas entre os parentes, na época, indicam que a identidade do criminoso corria de boca em boca. Nessas correspondências a que Marchi teve acesso, comentava-se o fato, mas omitia-se o nome. ‘‘Pobre Motta, vítima de seu próprio sangue’’, lamentava uma delas.
José do Patrocínio narrou o episódio num livro editado em 1877, afirmando que fora um escravo o autor da chacina. Este teria confessado na hora da morte ser o culpado. Pura ficção, mesmo porque era impossível uma única pessoa fazer todo o serviço, como observou o jornalista. ‘‘Historiadores mais sérios chegaram direto ao assassino’’, afirmou.
Daquele setembro de 1855 a 1955 Macaé se arrastou sem que conseguisse se firmar, como gostaria. ‘‘Muitos decênios depois da execução, os bisnetos e trinetos do juiz, dos jurados, dos carrascos, dos espectadores e até de quem não foi à praça do Rocio ver a morte oficial de Motta Coqueiro ainda guardavam a dor culpada da execução injusta’’, diz um trecho do livro.
Os 54 mil habitantes da cidade não se lembraram da maldição, no dia 6 de março de 1955, à exceção do professor Antônio Alvarez Parada, que nessa data perdeu o pai, Marcial Parada. ‘‘Por que isso teria de acontecer hoje?’’, perguntou à mulher. O certo é que nesta data chegava ao fim um século de atrasos, e iniciava-se uma série de acontecimentos que levariam a localidade a ser uma das mais prósperas do Norte do Rio de Janeiro, com a descoberta, anos mais tarde, de petróleo em sua bacia marítima.

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