Crime contra a história
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de maio de 1999
Érika Pelegrino 
Em poucas horas parte da história e da memória de Londrina foi ao chão junto com as paredes da casa da Rua Canudos, 261, no Jardim Higienópolis. Tratava-se de uma edificação de madeira levantada no início da colonização da cidade, que serviu a um prostíbulo e durante décadas foi residência de muitos londrinenses, chegando a ser até mesmo escola. Esta é apenas mais uma das construções antigas de Londrina que desaba em nome da modernidade vertical.
Muitas outras estão condenadas. As antigas casas de madeira levantadas por pioneiros guardam em suas paredes uma parte da história, da memória de Londrina, que parece não ser respeitada.
Segundo o sociólogo da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Nelson Tomazzi, Londrina tem como característica querer passar a imagem de uma cidade inovadora, em função disso destrói coisas importantes.
Na ânsia de preservar da história apenas aquilo que remeta a um passado glorioso são cometidas atrocidades contra a memória das edificações, interferindo-se em suas estruturas, demolindo-as, arrancando trilhos, higienizando a cidade, como se uma parte da memória fosse uma mancha que tivesse que ser apagada.
O professor, que desenvolveu uma tese sobre o tema, cita vários exemplos de descaso com a história física de Londrina. No final da década de 70 foi demolida a prefeitura que na época era sediada na Rua Minas Gerais onde hoje é o banco Bradesco.
Dorico da SilvaO sociólogo Nelson Tomazzi (acima) critica as demolições como a que acaba de acontecer numa antiga casa da Rua Canudos: este local tinha históriaNem mesmo um painel de azulejos, símbolo de arrojo na época, foi poupado.
Foram os alunos do curso de Arquitetura que pegaram os cacos e reconstituíram o painel que hoje está na UEL, conta Nelson Tomazzi. A ferrovia também nasceu como símbolo de progresso, num período em que a cafeicultura estava no auge. Ao ser desativada já trazia o cunho de símbolo do atraso.
Segundo o professor, deveria ser feito um resgate da história ferroviária e não desativá-la. Junto com os trilhos, arrancaram a memória da ferroviária e desta passagem da história de Londrina, afirma. Com a zona de prostituição de Londrina, conhecida como Vila Matos, e famosa em todo o Brasil nas décadas de 50 e 60, aconteceu a mesma coisa. Transformou-se em mancha, então fez-se uma higienização e este segmento da população sumiu, afirma Tomazzi.
A cadeia pública, desativada no início da década de 90 é outro fragmento da história de Londrina que parece ser desprezado. O prédio está abandonado e corre o risco de também acabar no chão.
Porque não transformar a cadeia pública em um museu contra a violência, um centro de documentação para mostrar às futuras gerações que isto não pode voltar a ocorrer, como acontece em qualquer parte do mundo com edifícios que foram espaços onde se praticou algum tipo de tortura. Não, o prédio está abandonado e vai acabar sendo demolido, prevê Nelson Tomazzi.
A antiga rodoviária que foi construída, também no auge da cafeicultura, pelo arquiteto Villanova Artigas, foi transformada em Museu de Arte. Em primeiro lugar, segundo o sociólogo, isto descaracteriza o espaço que foi criado para ser rodoviária e não um museu. Depois ainda interferem na obra do arquiteto colocando um suporte, décadas mais tarde transformam-na em museu e colocam grades em torno do edifício. Que preservação da história é esta?
Os desmandos vão além. Em um ato de contradição a casa do pioneiro colocada na UEL como forma de preservar a memória da cidade, simplesmente ganhou uma camada de tinta. Quer dizer, as pessoas vão ver a casa e pensar que as antigas edificações eram pintadas, o que não é verdade, afirma Nelson Tomazzi.
O professor lançou mão destes exemplos para mostrar que Londrina tem uma memória seletiva, que escolhe o que será preservado ou não.Uma memória que busca sempre remeter a um passado glorioso, porque o presente não é mais. A história da cidade é contada só até a década de 60, auge da cafeicultura, afirma.
A história de Londrina é tratada com descaso, na análise de Nelson Tomazzi, porque é contada sempre sob a ótica de quem está no poder. E eles querem livrar a cidade do que eles julgam feio, afirma. Londrina foi fundada como outras do oeste paulista, não há nada de diferente. Foi uma cidade construída por forasteiros. E na ânsia de mostrar uma cidade inovadora e diferente, peca-se contra a sua história. Temos uma memória caricatural, conclui.


