Em exibição a partir desta segunda feira (24) em Londrina, no Ouro Verde, “Criaturas do Senhor”, drama irlandês de 2022 dirigido a quatro mãos pelas americanas Saela Davis e Anna Rose Holmer, tem como ponto de partida a história de um filho que volta de surpresa para casa depois de longa ausência.


O cenário nos lembra que o mar costuma arrastar seus mortos e trazê-los à luz. A cena, claro, é simbólica porque o que o filme pretende nada mais é do que trazer à tona o que está escondido, a tragédia nunca confessada.

Estamos numa vila pesqueira da costa irlandesa forjada pela tragédia, onde a comunidade vive do trabalho de seleção do peixe que os homens entregam todos os dias nos seus barcos e dos cuidados com as ostras do Atlântico. Neste universo frio e agreste fechado em si mesmo, onde muito pouco se expressa e quase tudo se esconde, encontramos a figura de Aileen (Emily Watson), a mãe que sempre viveu em silêncio, aquela que muitas vezes consentiu em não fragilizar o complicado ambiente familiar. Aileen sabe de muitas coisas, mas age como se não soubesse e leva nos braços o filho Brian (Paul Mescal), recém-chegado da Austrália. Não sabemos o que o levou a fugir, nem o que aconteceu com sua vida anterior.



Na primeira parte, “God’s Creatures” funciona como um retrato social dos usos & costumes daquele cantinho da Irlanda. No entanto, no segmento central da narrativa, entendemos por que o filho partiu para a Austrália, qual é o passado que ele esconde e qual é o passado que muitos homens da família sempre esconderam sob o olhar consentido da figura materna. Algo sujo virá à tona e tudo acabará se encaixando em poderoso drama sobre violência doméstica, predação masculina e os silêncios de uma sociedade que acaba consentindo.



O filme das realizadoras Saela Davis e Anna Rose Holmer posiciona um microscópio sobre uma comunidade pequena e pobre, onde aliadas femininas podem garantir de alguma maneira uma espécie de santuário. A trama permite às cineastas explorar a forma como se preserva o privilégio masculino através das próprias mulheres. As duas são precisas em recriar a vida interior dos personagens, usando cores suaves e céus cinzentos. O enquadramento próximo em alguns momentos também parece estar lentamente estrangulando os personagens na tela.

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Com razão, em meio às revelações do #MeToo, o eixo fica naqueles que cometiam abusos hediondos. Isso significava que as questões em torno dos que protegiam os agressores eram muito negligenciadas. Com o passar dos anos, questões sobre quem é ou não aliado vieram à tona. O dilema se divide entre o amor incondicional da mãe pelo filho e a necessidade de acabar com os maus-tratos e o ostracismo que toda a comunidade exerce sobre as mulheres que sofreram agressões sexuais.



E o filme realmente decola quando a Aileen de Emily Watson retoma o antigo enigma: o que ela está disposta a fazer para salvar seu filho ? O amor de mãe supera os limites morais? Como Aileen, “Criaturas do Senhor” leva seu tempo para encontrar o prumo e, ocasionalmente, ameaça perder o equilíbrio. Mas acaba por atingir um terreno seguro, e para isso é preciso falar dos dois nomes viscerais deste elenco.

Emily Watson é a atriz que deu a Cannes uma das melhores atuações femininas de todos os festivais quando, em 1996, quebrou o gelo dos corações com sua entrada hipnotizante em “Ondas do Destino”, de Lars von Trier. Há ecos dessa performance em sua personagem Aileen, que quer acreditar na bondade essencial dos homens problemáticos que a cercam. Mas o bar, outro coração pulsante da comunidade, se volta contra ela.

Paul Mescal, surpreendente candidato ao Oscar da categoria por “Aftersun”, é um ator que rapidamente se estabeleceu como alguém a quem chamar para o casting de qualquer filme que precise de um protagonista romântico, mas com um lado sombrio e trágico. Seus personagens nunca são brutos, apenas profundamente perturbados. Seu comportamento e sua fala lenta e deliberada sempre sugerem que há uma montanha-russa emocional acontecendo dentro dele.

SERVIÇO

“Criaturas do Senhor” ( “God’s Creatures”)

Onde: Cine-Teatro Ouro Verde

Quando: às terças e quartas

Horário: às 16 e às 19h30

Preço: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)