Criatura é notícia e vira mascote
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sábado, 21 de junho de 1997
Paulo San Martin Campinas Especial para a Folha2 
ReproduçãoHá dois tipos de chupa-cabras. Um talvez seja real. O outro, com certeza, é real.
O primeiro é este que matou ovelhas e arrancou suas orelhas em Campina Grande do Sul, no Paraná; deixou marcas estranhas em bezerros e cães no interior de São Paulo; chupou o sangue de outros em diversas localidades de Minas Gerais. Há registros da passagem deste bicho por Porto Rico, México e Estados Unidos. Há muitas evidências de sua existência real. Registros de suas patas, fragmentos de pêlos e até fotografias de supostos chupa-cabras encontrados mortos.
Estas evidências já chamaram a atenção de especialistas de todo tipo: estudiosos do insólito, veterinários, médicos e biólogos. Eventualmente, alguns deles emitem laudos, como o recentemente assinado por veterinários de Curitiba, que atribuem o mistério a cães abandonados, predadores naturais e coisas do gênero. Para todo o inexplicável, é claro, deve - ou deveria - existir sempre uma explicação científica. Esta é a razão de existir da Ciência. Mas, antes mesmo que seja assim, inúmeros destes casos ainda permanecem inexplicados. O que se pode esperar é que os cientistas, um dia, consigam elucidar esta história.
Mas há um outro chupa-cabras, este sim comprovadamente real. É aquele que existe, já solidamente construído no imaginário popular. Depois de toda a confusão criada em torno do bicho nos últimos meses, dificilmente ele poderá ser pulverizado por qualquer explicação racional. Aliás, este chupa-cabras, sim, beira o irracional.
Assim que as primeiras notícias sobre o primeiro chupa-cabras - aquele dos ataques aos animais - começaram a correr, o assunto rapidamente ganhou a mídia nacional. Ele foi notícia no Diário Popular e O Estado de S.Paulo esta semana. Também apareceu em reportagens no Diário do Povo e Correio Popular, de Campinas e jornal Todo Dia, de Americana. No início do mês, o programa Brasil Verdade, da Rede Bandeirantes, dedicou-se ao assunto, e também a EPTV, retransmissora da Rede Globo para todo interior de São Paulo.
Eu mesmo, o mero escriba destes primeiros relatos, entrei em parafuso várias vezes. Fui obrigado a desligar o telefone para conseguir trabalhar. Pessoas ligavam do Brasil inteiro, pedindo informações ou contando novas e fantásticas histórias.
No imaginárioNas cidades de Sumaré, Monte-Mor e Capivari (SP), a exemplo do que ocorreu em Monte Alegre do Sul, autoridades tiveram que encontrar métodos para acalmar a população. Pais não deixavam seus filhos irem sós à escola; bairros inteiros mudaram hábitos noturnos, com medo do ataque do chupa-cabras.
Numa verdadeira reedição globalizada dos arquétipos do lobisomem e dos vampiros, este chupa-cabras também adquire inúmeras faces, de acordo com a comunidade que o corporifica. Assustador, às vezes, é utilizado para criar medo na criançada: Fica quietinho, senão o chupa-cabras vai te pegar. Às vezes não passa de um ser animalesco que sai das entranhas da terra apenas para buscar o carinho e a compreensão dos seres humanos, modelo arquetípico de expressão das animalidades humanas largamente investigado pela psicanálise através, principalmente, da lenda A Bela e a Fera. E, também, pode adquirir a forma de um simpático mascote. Em Campinas, por exemplo, um
bichinho dentuço, vendido em chaveiros pelos camelôs na rua, ganhou o apelido de Chupinha e esgotou repetidamente na praça, sendo vendidas, em média, 300 peças por dia ao preço de R$ 3,00. Camelôs viajaram às pressas para o Paraguai em busca de novos exemplares. Este chupa-cabras é tão real e generalizado que talvez mereça até mais atenção do que esta que lhe tem sido dedicada pela mídia.


