Criatura da noite
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de agosto de 2002
André Bernardo<br>TV Press 
Houve tempo que Tarcísio Meira só fazia papel de galã. Seus personagens, invariavelmente, era sempre heróicos, românticos, impolutos... Hoje, aos 63 anos, ele já se dá ao luxo de interpretar tipos asquerosos, como o Dom Jerônimo de A Muralha, um fanático religioso que morreu na fogueira da Inquisição, ou simplesmente cômicos, como João Medeiros, um fotógrafo bon vivant que trazia piercings na orelha. Mas Tarcísio Meira nunca foi tão longe. Em O Beijo do Vampiro, ele interpreta uma autêntica criatura das trevas, que se alimenta de sangue humano. Num certo momento da carreira, tive o maior cuidado em não desapontar o público. Ele esperava de mim uma postura de super-herói. Atualmente, ele já espera qualquer coisa de mim, brinca.
Nos últimos anos, os tipos heróicos, como João Coragem, de Irmãos Coragem, e Capitão Rodrigo, de O Tempo e o Vento, cederam lugar a outros mais odiosos, como Renato Villar, de De Corpo e Alma, e Raul Pellegrini, de Pátria Minha. Mesmo sem se importar em manter a imagem de homem-dos-sonhos-das-donas-de-casa, Tarcísio pediu ao autor Antônio Calmon que o protagonista da próxima novela da novela das sete fosse um vampiro comedido, desses que não machucam nem crianças nem velhinhos. Não é o fato de ser ou não mau-caráter que torna o personagem bom. Ele é bom quando você acredita nele e, principalmente, quando o público acredita no que estou fazendo, teoriza.
Com mais de 40 anos de tevê, já tinha passado pela sua cabeça fazer um vampiro numa novela?
Nunca em tempo algum. Mesmo porque vampiros não fazem parte da cultura brasileira. Essa novela não passa de outra grande brincadeira do Antônio Calmon. Assim como Um Anjo Caiu do Céu. Quando recebi o convite, pensei logo: Como vou fazer para compor um vampiro?. Sei lá! Nunca vi um... Como eu posso saber? Não sei. O jeito é brincar em cima disso. Não tenho outra intenção senão me divertir e divertir o público também com essa história de vampiros.
Qual foi sua reação ao se ver no espelho com olhos demoníacos e dentes pontiagudos?
Barbaridade! Na primeira vez que me olhei no espelho, levei um susto. Tive medo de mim mesmo. Cheguei a ter pesadelos à noite. Mais tarde, quando fiz o implante de cabelo, me senti o próprio sobrinho do Rei Arthur. Nunca estive tão cabeludão no vídeo. Ter cabelos compridos é muito chato. Sinceramente, não sei como as mulheres aguentam... Além disso, a armadura que uso compõe muito bem o personagem, com direito a elmo e a espada. Acho tudo muito divertido. Só não é mais divertido porque a armadura impede os movimentos. Às vezes, fica difícil até para andar...
O Beijo do Vampiro é a segunda novela consecutiva que você faz do Calmon. O que mais chama a sua atenção no texto dele?
Ele escreve muito bem. Em O Anjo Caiu do Céu, por exemplo, a dupla ficou divertida porque aconteceu um encontro de personagens. O João Medeiros não levava o tal conflito de gerações a sério, enquanto o Rafa, no fundo, era um sujeito careta. Foi interessante também porque, no início, o João era um contestador e, depois de morto, assumiu atitudes conciliatórias. Além disso, achei engraçada a intimidade que ele tinha com Deus, a quem chamava de Julião. Se as pessoas vivessem mais o sentido festivo da religião, tudo seria mais divertido.
Em algum momento, o papel de galã chegou a incomodá-lo?
O fenômeno das primeiras novelas foi incrível. As pessoas nos conheciam como personagens e viviam nos confundindo com eles. Demoraram para ver que ali havia um Tarcísio Meira, uma Glória Menezes e assim por diante. Por isso, sempre tive cuidado de não desapontá-los. Mas também não quis me vilipendiar. Sei que, em alguns momentos, frustrei as pessoas. Aliás, acho que ainda frustro. O público espera que eu ande sempre em um carro de último tipo e se frustra ao me ver numa caminhonete ou num Fusquinha. Tenho um fusca lá no sítio e ando muito nele. Na verdade, o carro é da Glória e ela tem um ciúme danado dele.


