São Paulo, 24 (AE) - No fim dos anos 70, quando foi lançado o primeiro "Guerra nas Estrelas", não se dava tanta bola para esse tipo de filme. As pessoas iam (ou não), divertiam-se (ou não) e depois se esqueciam (com certeza). Podiam dar boas risadas com aquele cachorrão espacial estilizado
o Chewbacca, ou com o boteco espacial barra-pesada, povoado de seres improváveis. Não rendia cinco minutos de conversa. Afinal, o País vivia uma abertura política ainda incipiente e problemática e havia assuntos mais interessantes que a saga dos jedis para a conversa fiada entre um chope e outro.
Os tempos são outros e, 22 anos depois, o lançamento de "Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma" parece monopolizar as atenções de todos. Ao menos é o que sugere o bombardeio publicitário e a obsessão da mídia. Claro, nas duas décadas de intervalo entre um filme e outro, algumas coisas aconteceram no mundo. Uma delas é que a tal da indústria cultural venceu de vez a batalha e impôs-se em quase todos os níveis. No mesmo movimento completou-se a operação ideológica que qualifica produtos do tipo da série "Guerra nas Estrelas" como obras relevantes. Portanto, dignas de ocupar espaço social, incontáveis sites na Internet, horas e horas de amável debate entre aficcionados.
Mais: a estratégia é fazer crer que somos todos aficcionados. Ou deveríamos ser. Quem não gosta deve examinar a cabeça ou sentir-se culpado. Nada mais natural. Esta é uma sociedade de consenso com vistas ao comércio e quem se desvia da média suposta deve ser execrado. Dê uma olhada em volta. Sempre haverá alguém para dizer que se o crítico não gostou é porque é mal-humorado. Essa servidão voluntária não ocorre por acaso. Como o produto vem da matriz, custa caro e chega amparado em campanha publicitária gigantesca, convém não arriscar e enfiar a viola (e o espírito crítico) no saco. Fenômenos - Isso não quer dizer que "Star Wars" e outros produtos do gênero não mereçam alguma atenção. Como "Titanic", são fenômenos de comunicação de massa e portanto dignos de análise - se não estética, pelo menos sociológica. Já foi dito que "Star Wars" segue a matriz conceitual do faroeste e a adapta ao mundo tecnológico da era espacial. É uma boa linha teórica. O crítico francês André Bazin, que não pode ser acusado de preconceito, dizia que o western tinha nascido do encontro entre uma mitologia e um modo de expressão. O épico da conquista do Oeste encontrara nas imagens em movimento seu veículo ideal. Por isso, raciocina, a literatura sobre a colonização americana dificilmente ultrapassa os limites do seu país de origem, enquanto sua versão cinematográfica pôde tornar-se universal.
Nota-se que fala do gênero western enquanto tal e não apenas das obras-primas que nasceram nele. O faroeste, enquanto durou, foi muito além de filmes como "No Tempo das Diligências", "Os Brutos Também Amam" ou "Rastros de àdio". Seu poder de encantamento se revela em cada humilde faroeste, desses destinados ao esquecimento, mas que preenchem alguma função imaginária no momento em que são exibidos. Isso porque todos eles, geniais ou medíocres, se fundam em estruturas míticas comuns: a divisão nítida entre o bem e o mal; a saga do herói solitário e redentor contra o vilão empedernido; a necessidade do estabelecimento da lei num ambiente de moralidade duvidosa; a mulher como reserva de pureza, mas figura secundária em um mundo viril.
Tudo isso está presente no mais humilde dos faroestes e mesmo nas paródias, como os western spaghetti. São figuras míticas poderosas. Por isso, dizia Bazin, a Guerra de Secessão é a mais moderna das epopéias, destinada a ocupar no imaginário do século 20 (e talvez do 21) o papel ancestral que a Guerra de Tróia tinha na Antiguidade. A marcha para o Oeste seria uma espécie de odisséia moderna, e John Ford, o Homero contemporâneo. Há um tanto de exagero nisso tudo, o que não invalida a acuidade da análise. De qualquer forma, é notório que George Lucas se inspirou na fértil mitologia do faroeste para criar a sua série de filmes.
Fez mais. Valeu-se da consultoria do papa mediático da mitologia, Joseph Campbell, para engendrar sua saga espacial. Campbell afirmou que Lucas fizera a coisa certa. Reabilitara a figura do herói positivo, segundo ele necessária para qualquer sociedade digna desse nome, o que Brecht contestaria, mas, enfim
essa é outra história. Oportunismo - Lucas teve, sobretudo, senso de ocasião. Lançou a série num momento em que a auto-estima dos EUA estava em baixa. O país havia perdido a guerra no Vietnã e vira um presidente da República, Richard Nixon, ser conduzido à renúncia para evitar o impeachment. Nada melhor que um herói, positivo e unidimensional
como Luke Skywalker, para redimir um país poderoso mas em dúvida sobre si mesmo, como um urso em crise de identidade. Na verdade, os EUA só vieram a recuperar a plenitude da autoconfiança no governo Reagan, que talvez não por acaso era um péssimo ator egresso de Hollywood. Reagan chegou a batizar de "guerra nas estrelas" o projeto de defesa nuclear que queria criar. Chamava a ex-União Soviética de "império do mal" e isso sem rubor aparente. Soava ingênuo, mas talvez não fosse tão tolo assim. Reagan dirigia-se às pessoas em termos simples. Dialogava com o inconsciente da nação e expressava-se nos termos mitológicos (re)criados por George Lucas. Fazia-se ouvir. Além disso, o próprio cinema americano não ia lá bem das pernas durante os anos 60 e 70.
Hollywood perdera posições relativas no mercado mundial e tentava reconquistá-las. Foram George Lucas e seu amigo, Steven Spielberg, que conseguiram recolocar os Estados Unidos na posição de hegemonia audiovisual, com filmes como "Guerra nas Estrelas", "O Império Contra-Ataca" e "O Retorno de Jedi", do primeiro, e "Tubarão", "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", "E.T. - o Extraterrestre" e "Os Caçadores da Arca Perdida", do segundo.
Lucas, em particular, mostrou aguda vocação de comerciante. Intuiu que se iniciava uma nova era do cinema de entretenimento, em que os filmes, propriamente ditos, têm a função de "puxar" a venda de produtos a eles associados, como brinquedos, camisetas, chaveiros, videogames e toda a sorte de gadgets que se possa imaginar. São filmes-eventos e movimentam uma montanha de grana, com acordos de merchandising bilionários, como o celebrado com a Pepsi para "Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma". Sob essa avalanche de interesses econômicos e efeitos especiais, é natural que a criatividade sofra.
Esse "Star Wars" que entra agora em cartaz não tem a graça ingênua do antigo "Guerra nas Estrelas", com exceção de algumas aparições de Jar Jar Binks, único personagem politicamente incorreto com a óbvia exceção dos vilões de sempre. Os elementos míticos continuam presentes, associados agora à paráfrase bíblica do anjo caído (o jedi que irá transformar-se na encarnação do mal nos episódios futuros). O resto é a estética (se o termo cabe) de tobogã, a pauleira e a velocidade, assumidamente alçados à condição de linguagem universal. Afinal, os filmes, e seus produtos associados, têm de se afirmar no grande mercado global. O que sobra de cinema depois disso tudo? Muito pouco.

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