Até que ponto vai a crueldade humana? A pergunta, que poderia ser apenas retórica se estivesse sendo formulada numa mesa de bar, agora pode ser respondida com toda certeza: não há limites. É o que prova uma única visita à Mostra Internacional de Instrumentos de Tortura da Idade Média, que está exposta no Museu Histórico de Londrina ‘‘Padre Carlos Weiss’’ até o dia 24, em promoção conjunta do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina e Museu. O que o público vai ver - e não pode, de forma alguma, deixar de ver - é a prova fundamental que os homens não devem ser comparados a animais. A comparação seria ofensiva aos bichinhos.
Organizada pela Associazone Ricercatori Storici, da Itália, a mostra está, há 11 anos, percorrendo o planeta com dois objetivos. O primeiro é histórico-científico, para mostrar a evolução da tortura no mundo e resgatar uma parte importante da história da humanidade que muitos preferem esquecer ou ignorar, para benefício próprio. O segundo é sócio-filosófico, justamente para fazer o homem contemporâneo pensar e refletir porque a tortura, infelizmente, ainda não foi banida das sociedades modernas.
Exposta na Itália, França, Polônia e Alemanha, a mostra está no Brasil desde junho e, em março, segue para Argentina, Uruguai, Chile, Venezuela, Estados Unidos e Japão. Depois ficará permanentemente em um museu da Itália. Por onde passa, os expositores - com o eslogam ‘‘Tortura Nunca Mais’’ - recolhem assinaturas para serem enviadas à Organização das Nações Unidas (ONU), em apoio a convenção de 1948 contra a tortura e outros tratamentos cruéis.
Período negro Segundo o curador da exposição, o historiador italiano Franco Gentili, 54 anos, membro da Associazone e especialista em Idade Média - assunto que pesquisa há mais de 30 anos -, os 48 instrumentos que compõem a exposição itinerante são apenas a terça parte dos que foram recolhidos em museus e castelos europeus, principalmente italianos. ‘‘Mas, por serem muitos, seria praticamente impossível, e muito caro, viajar de um lado para outro com todos. Por isto a condensamos em alguns dos mais significativos objetos’’ - diz. Mas pode ser que, até ser encerrada, seja ainda mais completa.
Em cada país que passa, Gentili geralmente consegue um ou dois objetos macabros para o acervo. O Brasil, por exemplo, já contribuiu com dois instrumentos utilizados na época da escravidão e com o mais recente de todo o acervo: um aparelho de eletrochoque usado no auge da não tão medieval Ditadura Militar. Os três foram definitivamente incorporados à mostra.
Gentili explica que a idéia da exposição surgiu a partir de um livro, escrito por ele e outros colegas da Associazone Ricercatori, sobre a Inquisição, um dos mais negros períodos em termos de crueldade do homem para com seu semelhante. ‘‘A maioria dos documentos sobre a Inquisição se encontra, ainda hoje, em poder da Igreja Católica, no Vaticano. Nós pedimos permissão para pesquisar estes documentos mas nos foi negada. A Igreja não gosta de ver seu período negro vasculhado por pesquisadores. Depois que a Inquisição terminou, o Vaticano destruiu todos os instrumentos de tortura que estavam em seu poder’’ - afirma.
Embora a recusa da Igreja tenha atrapalhado um pouco, os pesquisadores não desistiram e entraram em contato com a maioria dos castelos da época medieval e museus da Europa pedindo subsídios para as pesquisas. ‘‘Três meses depois já tínhamos um grande material em nossas mãos. Inclusive estes instrumentos’’ - conta. Com os resultados das pesquisas, os historiadores calculam que 50 milhões de pessoas sofreram tortura ou humilhação pública somente nos oito séculos que compreendem a Idade Média. ‘‘A partir daí, resolvemos montar a exposição para que ela possa servir como um grito de alerta, porque a tortura não é coisa do passado. Ela existe e vai continuar existindo enquanto deixarmos’’ - finaliza.

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