Estamos habituados a associar a criatividade ao trabalho artístico. Mais do que na linguagem, é na criação que músicos, escritores e artistas em geral obtêm sua matéria-prima. Talvez por isso, muitas pessoas associem a criatividade mais à imaginação e à fantasia do que a fatos concretos e cotidianos. Mas ter um espírito criativo contribui também para encontrar formas mais eficientes de fazer as mesmas coisas, para resolver problemas e até para transformar sonhos em realidade.
''Não importa quem você seja ou o que você faz, o espírito criativo pode entrar na sua vida'', propõe a professora de Crítica Genética e doutora em Estudos da Linguagem na Universidade Estadual de Londrina, Edina Panichi. Nesta entrevista à FOLHA, ela ensina como cultivar esse espírito criativo, usando-o em todas as atividades da vida e também nos relacionamentos.
A pessoa criativa é aquela que vê o mundo de forma diferente?
A criatividade está, sim, em nossa maneira particular de ver as coisas. Muitas criações nascem da justaposição de ideias ou elementos que comumente não aparecem juntos. O princípio norteador da adequação é a analogia. Analogias e comparações ajudam a inserir as coisas num contexto novo ou contemplá-las de um ponto de vista totalmente original. A capacidade de ver as coisas sob um prisma diferente é fundamental para o processo criativo.
Qualquer pessoa pode ser criativa, independente de sua área de atuação?
Existe a falsa idéia de que são criativos os artistas, os músicos, os poetas. Ficamos bitolados na maneira de encarar a criatividade. A criatividade independe da área de atuação. Um mestre-cuca, em sua cozinha, revela criatividade ao criar uma nova receita, por exemplo. Cada um demonstra propensão para alguma coisa. Pode ser algo que faz no trabalho. A criatividade surge quando elementos-chaves se justapõem: novidade, adequação e receptividade do público alvo.
Que fatores podem inibir o espírito criativo?
Antes de mais nada, é absolutamente necessário ser receptivo e saber ouvir. Estamos acostumados ao nosso modo cotidiano de pensar em soluções. Vemos apenas a forma óbvia de encarar um problema, assumindo a mesma atitude cômoda com que sempre refletimos a respeito. Por que não inovar? Outro obstáculo é a autocensura. Diante de um lampejo de criatividade, questionamos sempre o que os outros vão pensar. Se vão aceitar, gostar. Temos que ter a ousadia de repelir tais pensamentos. Quebrar os paradigmas faz parte da criatividade.
O que acontece quando somos criativos?
Quando vamos além das formas tradicionais de fazer as coisas, de resolver problemas, de expressar as nossas opiniões obtendo um sucesso capaz de influenciar as pessoas, nossa criatividade assume uma dimensão social muito grande.
Uma pessoa criativa pode sofrer por assumir atitudes pouco convencionais?
O problema maior são os pessimistas, aqueles para quem as coisas não devem mudar. Nenhum dos grandes personagens, cuja vocação criativa transformou seu campo disciplinar, foi aceito de início. É preciso perseverar. Esforços criativos, para se imporem numa determinada esfera, têm de ser convincentes, implicam a adesão dos outros em qualquer ambiente.

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