Criatividade a favor do som
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de julho de 2004
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Tem serrote, prego e martelo. Tudo isso faz parte do mundo musical de Teca Alencar de Brito, que esteve em Londrina, na semana passada, para realizar a oficina ''Construindo Música - Oficina de Criação'', como parte da programação pedagógica do 24º Festival de Música de Londrina,
Numa verdadeira ''bagunça organizada'', Teca, de maneira lúdica e divertida, estimula os alunos a construírem instrumentos musicais a partir de materiais inusitados. Vale tudo: potes de sorvete que envoltos em elásticos, normalmente usados para para prender dinheiro, ganham ares de um instrumento de cordas; ou uma lata de bombons que devidamente presa a um pedaço de madeira se transforma em uma ''banjo de uma corda só''; ou até um ''saxofone'' feito de tubo de papelão com uma bexiga na ponta.
As atividades, extremamente práticas, visam a proporcionar ao aluno a pesquisa de gestos e qualidades próprios à produção de sons, a transformação de materias em objetos sonoro-musicais, juntamente com a reflexão de se pensar esse tipo de proposta no ambiente de educação musical.
Teca conta que após a sua formação musical tradicional, com destaque ao piano, ainda não havia se dado conta da questão do trabalho de educação musical. Isso aconteceu mais tarde, principalmente depois que teve contato com o trabalho de pesquisa de Koellreutter. ''Isso mexeu comigo, me fez voltar para a música contemporânea, a repensar as minhas posturas pedagógicas'', afirmou.
A partir daí, Teca contou que incursionou por um território voltado para a improvisação e a pesquisa de novas possibilidades musicais. Há 21 anos, montou a TECA Oficina de Música, escola própria onde explora o ensino da música com mais liberdade e criatividade, mas sem deixar de também estudar os instrumentos convencionais.
''A pesquisa de materiais inusitados é um exercício importante, rompe com o estilo da música tradicional. É também um exercício de escuta onde se procura qualidades sonoras'', ressaltou.
Teca também comentou sobre a importância dos ''gestos'' que acostumamos a adquirir no manuseio dos instrumentos tradicionais. Devemos ousar, ela sugere, e na sua aula os alunos são convidados a bater, raspar, sacudir, girar, tremular, soprar, dedilhar, pinçar, jogar, amassar, rasgar os instrumentos que vão criando.
''Os gestos são reflexos da nossa vida e devemos pensar sobre eles. O educador musical também deve saber lidar com o desafio da falta de instrumentos adequados, adaptando-se sempre'', disse Teca.
A construção da música, essencialmente, nunca pode vir dissociada da escuta e do gesto, defende Teca. Segundo ela, às vezes, o músico tradicional fica tão técnico que deixa de perceber que a música pode surgir das coisas mais simples.
''Essa potencialidade fica ainda maior com o trabalho feito com crianças, dentro de um contexto lúdico e de fantasia. Para a criança, uma guitarra de papelão é uma guitarra, ela não tem preconceito e passa a aprender música a partir da criação dos instrumentos.''
Recentemente Teca lançou pela Editora Fundação Peirópolis os seguintes livros: ''Koellreutter educador: o humano como objetivo da educação musical'' e ''Música na educação infantil: propostas para a formação integral da criança''. O seu último CD é o ''Música pra todo lado''. Mais informações sobre o seu trabalho podem ser obtidas pelo e-mail [email protected].


