Uma temporada recheada de exposições de arte, não quer dizer necessariamente que o visitante encontrará obras de qualidade para apreciar. Às vezes, é até temerário circular pelos espaços destinados a pinturas, desenhos, esculturas, fotografias ou instalações em Londrina.
O que mais se vê é amadorismo ou picaretagem. O pior é que, dependendo do que observar na sala, um eventual iniciante no mundo das artes nunca mais voltará ao local. A agenda dessa semana, porém, apresenta três exposições recomendáveis nas quais a pesquisa, o rigor e a criatividade parecem saltar das telas sem o risco de afugentar o público.
A artista Silvana Fajardo, por exemplo, montou meio que de improviso sua exposição no piso térreo do Royal Plaza Shopping. Mas conseguiu reunir um belo apanhado de sua produção. Seu pai morreu na semana passada, o que a fez garimpar os trabalhos às pressas sem a preocupação de dar-lhes uma coerência temática.
''Juntei um pouco de tudo, um pouco da minha criação. São trabalhos de pintura contemporânea, que revelam um ecletismo de estilos. Gosto de harmonizar tons e formas. Acredito que a imagem deva ter um equilíbrio, como se fosse uma melodia pictórica, uma música harmônica que não tivesse nem tons graves demais e nem tons agudos em excesso'', explica ela.
Todas as obras reunidas (à exceção de uma escultura) foram concebidas em acrílica sobre tela, embora ela trabalhe também com óleo, pastel seco e tecido. Há pinturas abstratas e figurativas. Algumas revelam temas religiosos e outras trazem referências à África. ''Procurei retratar as memórias da viagem que fiz àquele continente em 2000. Lá me identifiquei muito com as mulheres, que aparecem nas figuras das telas sempre ao lado de vasos ou de outros objetos de cerâmica'', conta.
Silvana mantém há um ano uma exposição permanente de suas pinturas nos corredores do Hospital Evangélico. São quase 50 obras espalhadas pelas paredes das alas da instituição. Atualmente ela ministra oficinas de arte no Colégio Portinari e na rede pública de ensino. Deixou de dar aulas particulares no ateliê, depois de uma década de atividades.
''É gratificante perceber os alunos tendo prazer em produzir, em criar, nas escolas. É diferente das aulas particulares no ateliê, onde muitos alunos querem aprender a pintar interessados mais em vender os quadros do que no processo de criação artística. Isso estava me bloqueando. Tive que largar'', salienta.
Com 29 anos de carreira artística, ela conta que fez sua primeira exposição no Sesc, quando tinha 15 anos. ''Era uma exposição de pintura em tecido, uma série de camisetas com desenhos de paisagem'', lembra. É esse mesmo Sesc que abriga trabalhos estimulantes de outras duas outras artistas locais.
Andressa Boligian, geógrafa de formação, reúne 30 telas na exposição ''Rios Possíveis'', que mostra as formas que os rios podem desenhar na superfície da terra. ''Procurei resgatar minha memória profissional expressando formas, como aquelas que lembram imagens de satélites e fotografias aéreas'', explica.
Ela ressalta que a busca de materiais para conceber essas representações também possui estreita ligação com a geografia: todas as telas são pintadas com terra e detalhes em nanquim e óxidos minerais. ''Transformar a terra em tinta foi uma descoberta valiosa neste processo'', afirma. ''Inicialmente coletei cores de terra do jardim, depois em lugares como beira de estrada, mangue, barrancos e terrenos vazios. É um processo contínuo de investigação e descobertas: a cor quando molhada e quando seca, a textura, o processo de secagem de cada uma, sua reação com outros materiais e os suportes, como papel e telas. Os óxidos e o nanquim complementam o trabalho''.
Também no Sesc, Tames Moterani reúne imagens instigantes na exposição fotográfica ''No limite do Caos/Padrões e Estruturas Naturais''. A exposição é um desdobramento de seu trabalho de conclusão no curso de Educação Artística da UEL. ''Fiz uma pesquisa em torno da teoria do caos, segundo a qual há padrões que se repetem na natureza sem ser absolutamente iguais. A partir daí, procurei fotografar formações orgânicas que trazem esses padrões, como rachaduras de concreto, de troncos ou paredes com tinta descascada'', explica ela.
São 32 fotos reproduzindo imagens que convidam o espectador a mergulhar no universo das texturas recortadas do cotidiano. A artista sublinha: ''Muita gente não vê beleza numa parede que se descasca, mas eu vejo beleza e arte nessas coisas que se desmancham e se transformam''.

SERVIÇO
- Silvana Fajardo
Quando - De hoje ao dia 29
Onde - Piso térreo do Royal Plaza Shopping (R. Mato Grosso, 310), em Londrina
- Andressa Bologian
Quando - De hoje ao dia 30, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h
Onde - 1º piso do Sesc (R. Fernando de Noronha, 264), em Londrina
- Tames Moterani
Quando - De hoje ao dia 22, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h
Onde - Hall de entrada do Sesc (R. Fernando de Noronha, 264), em Londrina

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