Criando com o Nada
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de janeiro de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
Inspiração, Dom divino. Jeito. Facilidade para fazer a coisa. Disciplina. Sensibilidade. Esforço. Determinação. Prazo de entrega. Afinal, quais são as qualidades e os motivos que dão sentido à criação humana? Por que fazemos arte?
É certo que as dificuldades ajudam na procura pela solução dos problemas, pois como diz o ditado: a necessidade é a mãe da invenção. Embora não se possa explicar com isto, nem dez por cento da produção dos artistas. Quem é que vai ficar pintando bem, fazendo escultura, instalação com a barriga roncando de fome?
Para o dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues, a questão toda se resumia à obsessão. Dizia que o sujeito, para se tornar escritor, tem de ser um obsessivo. Essa obsessão pode atacar na cama, na mesa, ou no banho, sem horário nem lugar determinados, sendo que deve-se sempre estar atento e pronto à ela, senão a arte não se realiza.
Mas tem artista que só cria na base da pressão. Quando tem uma encomenda para entregar, uma exposição marcada, ou um salão para mandar trabalhos. Parecem operários que recebem por produção. Outros, só executam seu serviço com hora marcada. Como funcionários. Não há qualquer demérito em cada uma destas formas regradas de trabalhar, seja com arte, seja com o que for. O que vale é a capacidade de expressão daquilo que cada um tem para dizer.
Criar, seja lá como for, mesmo não tendo nada a dizer, sem inspiração às vezes, pode se transformar até em música, como em Inspirado, de Arnaldo Antunes e Edvaldo Santana, que diz: inspirado como um boi sem saco, pacato, capado, sem pecado. Ou em outra canção do mesmo Antunes com a poeta Alice Ruiz, pedindo Socorro por qualquer sentido que faça sentido.
O sentido pode ser criado, como em um poema de Augusto dos Campos, a partir de ônada, ou quase-pouco#. O poeta matogrossense Manoel de Barros é um mestre neste tema. A partir de um cocô de mosquito ele desorganiza o mundo e as palavras à sua volta dando sentido às coisas aparentemente sem sentido algum. E o compositor John Cage, em seu famoso Discurso sobre o nada disse que não tinha nada a dizer mas já o estava fazendo (dizendo).
É no vazio, no vácuo, no nada, no desconhecido, que muitos artistas buscam o motivo para a continuidade de seu trabalho. O artista brasileiro Antonio Dias, que vive desde a década de 60 na Europa, recomeçou diversas vezes sua trajetória, retirando do buraco negro da criação a essência de sua obra plástica.
Hélio Oiticica, o inventor dos Parangolés e da Tropicália, teve seu momento de eureka ao jogar um tapete sobre o chão, batizando-o com o nome de probjetessência, ou seja, como a essência de um objeto que estava para ser realizado. Isto é contado nas cartas em que trocava com artista Lygia Clark. Ela própria acabou usando apenas a sensorialidade como matéria-prima para a criação de seus trabalhos.
Senso estético e linguagem apropriada aos meios expressivos compõem a arte da criação, ou melhor, a criação da arte, e não importa a maneira com que cada artista se disponha a criar: se o santo vai abaixar, se é preciso antes relaxar, ou usar drogas, remédios, esperar o sol, o patrão, ou o tempo deixar. Importa é o sonho do artista penetrar na corrente sanguínea da realidade, ajudando a bombear o coração das pessoas neste planeta.
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